No documentário do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore, “Uma Verdade Inconveniente”, quem viu não se esquecerá de um impressionante e muito extenso gráfico com as variações do CO2 e da temperatura nos últimos 650 mil anos. Em seguida, ele se utiliza até de uma espécie de elevador para salientar que as previsões apontam para uma elevação do CO2 nunca antes observada.
Não é falsa essa afirmação de que nunca na atmosfera da Terra tivemos tanto CO2 como agora? Sim, é falsa. Melhor seria dizer o contrário: há agora menos CO2 do que houve na maior parte de história da Terra. Vamos voltar à escola?
A Terra, como o Sol, tem 4,5 bilhões de anos de existência, mas sua história geológica é conhecida mais ou menos bem há apenas uns 540 milhões de anos. Então, a evolução da vida se acelerou nos oceanos. Quase abruptamente, multiplicou-se o número de espécies e se modificaram os tamanhos e as formas corporais dos animais marinhos.
Diferente dos animais anteriores, pequenos e de corpos moles, as novas espécies desenvolveram carapaças e esqueletos calcários duros que ficaram preservados em rochas sedimentares. A abundância de fósseis traz muitos indicadores sobre as mudanças ocorridas desde então na geologia e no clima. Por isso, ao último Éon, que começa então, foi dado o nome de Fanerozóico, do grego phanero (visível ou evidente) e zoe (vida). O Cambriano foi seu primeiro período. O Pré-Cambriano, todo o anterior.
Em meados do Siluriano, há 420 milhões de anos, ocorreu um fenômeno biológico fundamental: apareceram as plantas vasculares, plantas com talos rígidos e tecidos condutores feitos de uma nova substância orgânica – a lignina – que davam a elas o suporte estrutural necessário para poder crescer na vertical. Apareceram então árvores, desenvolveram-se bosques e essa explosão de vida foi possível em uma atmosfera muito mais quente e úmida que a atual e com muito mais CO2 nela do que há hoje em dia.
Depois o CO2 do ar foi decrescendo, até um nível muito baixo, semelhante ao de agora, provavelmente devido ao enterramento de grande parte do CO2 convertido pela fotossíntese em carbono orgânico. Ocorreu há 300 milhões de anos, ao final do Carbonífero, chamado assim precisamente por isso, pelas grandes quantidades de carbono que ficaram enterradas sem oxigenação no subsolo. A vida, tal e como a conhecemos agora, podia ter acabado, por falta de uma matéria prima essencial: o CO2.
Mas isso não ocorreu e de novo a atividade vulcânica forneceu o CO2 necessário ao ar. Crescei e multiplicai-vos, disse então Deus aos dinossauros, e aproveitando-se de uma atmosfera riquíssima em CO2 que permitia manter uma apetitosa e luxuriante vegetação, assim o fizeram. E o Jurássico, com uma concentração de CO2 de 5 a 10 vezes superior à atual, foi sua melhor época.
Logo, as coisas decaíram e, pouco a pouco, o CO2 foi diminuindo até chegar ao triste e frio Quaternário, no qual estamos metidos há 2 milhões de anos, com glaciações sempre à espreita, e acompanhando o frio umas quantidades mínimas de CO2 – umas 200 partes por milhão (uns 0,02%) – que nos breves milênios inter-glaciais sobe a 280 ppm, e que nós, no último, fizemos subir aos 380 ppm. Muito longe, muito longe ainda, da abundância de antigamente…
Ou, como diria Albert Einstein, tudo é relativo…
Ref.: A fonte da figura acima é do projeto GEOCARB III dirigido por Robert Berner
O post acima é, em parte, uma tradução livre do blog CO2, de Antón Uriarte. Para ver o original, clique aqui

Comentários