Mudanças climáticas: um resumo da ciência

Glossário
W/m² (watts por metro quadrado) – Quantidade de energia que incide em uma superfície de 1 metro quadrado em 1 segundo. Conhecido também como fluxo de energia.
Ciclo do carbono – Termo usado para descrever o fluxo do carbono, em suas várias formas, entre a atmosfera, os oceanos, as plantas, os solos e as rochas. Na atmosfera, o carbono aparece principalmente na forma de dióxido de carbono, mas ele existe também em formas diferentes em outros componentes, tais como o carbono orgânico no solo.
Forçamento climático (também conhecido como forçamento radiativo) – O desequilíbrio no forçamento de energia na Terra, resultante, por exemplo, de variações na energia recebida do Sol, de mudanças nas quantidades ou características dos gases de efeito estufa e de partículas, ou mudanças na natureza da superfície da Terra. Sendo assim, o forçamento climático pode resultar tanto da atividade dos humanos como de causas naturais. Ele é dado em unidades de W/m².
Sensibilidade climática – É a quantidade de mudanças climáticas (medida, por exemplo, pela variação da temperatura média global da superfície) para uma determinada quantidade de forçamento climático. É frequentemente citado (como será o caso aqui) como a variação de temperatura eventualmente resultante de uma duplicação das concentrações de CO₂, que se calcula que provocaria um forçamento climático de cerca de 3,6 W/m².
Variabilidade climática interna – Mudanças climáticas que ocorrem na ausência de catástrofes naturais ou induzidas pelo forçamento climático resultante da atividade humana, como resultado de interações dentro e entre os diferentes componentes do sistema climático (como a atmosfera, os oceanos e o mundo congelado).

Introdução
1 As mudanças climáticas têm implicações significativas para a vida presente, para as gerações futuras e para os ecossistemas dos quais a humanidade depende. Por conseguinte, as mudanças climáticas foram e continuam a ser objeto de intensa investigação científica e debate público.
2 Há fortes evidências de que o aquecimento da Terra ao longo do último meio século tem sido causado em grande parte pela atividade humana, devido à queima de combustíveis fósseis e mudanças no uso da terra, incluindo a agricultura e o desmatamento. O tamanho do incremento da temperatura no futuro e outros aspectos das mudanças do clima, especialmente em escala regional, ainda estão sujeitos à incerteza. No entanto, os riscos associados a algumas dessas mudanças são substanciais. É importante que os tomadores de decisão tenham acesso à ciência do clima da mais alta qualidade, e que considerem as suas descobertas na formulação de respostas apropriadas.
3 Considerando os debates públicos e políticos em curso sobre as mudanças climáticas, o objetivo deste documento é resumir as atuais evidências científicas sobre as mudanças climáticas e suas causas. Considera-se que a ciência está bem estabelecida onde há amplo consenso, mas o debate continua, onde continua a existir uma incerteza substancial. Os impactos das mudanças climáticas, diferentemente das causas, não são considerados aqui. Este documento se baseia em evidências recentes e se baseia no IV Relatório de Avaliação do Grupo de Trabalho I do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em 2007, que é a fonte mais abrangente de ciência sobre o clima e suas incertezas.

Clima e mudanças climáticas: ciência de base
O efeito estufa
4 O Sol é a fonte primária de energia para o clima da Terra. Observações de satélite mostram que cerca de 30% da energia do Sol que atinge a Terra acaba sendo refletida de volta para o espaço pelas nuvens, gases e pequenas partículas na atmosfera, e pela superfície da Terra. O restante, cerca de 240 watts por metro quadrado (W/m²) em média no planeta, é absorvido pela atmosfera e pela superfície.
5 Para equilibrar a absorção de 240 W/m² de energia proveniente do Sol, a superfície da Terra e a atmosfera emitem praticamente a mesma quantidade de energia de volta para o espaço; e o fazem através de radiação infravermelha. Em média, a superfície emite significativamente mais do que 240 W/m², mas o efeito resultante da absorção e da emissão da radiação infravermelha pelos gases atmosféricos e as nuvens reduz a quantidade que retorna para o espaço, equilibrando a energia recebida do Sol. Assim, a superfície se mantém mais quente do que do contrário seria, porque, além da energia que recebe do Sol, ele também recebe energia infravermelha emitida de volta pela atmosfera. O aquecimento que resulta dessa energia infravermelha é conhecido como efeito estufa.
6 Medições de aeronaves de pesquisa sobre a superfície e dos satélites, juntamente com observações em laboratório e cálculos, mostram que, além das nuvens, os dois gases de maior contribuição para o efeito estufa são o vapor de água seguido do dióxido de carbono (CO₂). Há menores contribuições de muitos outros gases, incluindo o ozônio, o metano, o óxido nitroso e gases produzidos pelo homem, como os CFCs (clorofluorcarbonos).

Mudanças climáticas
7 Mudanças climáticas em escala global, sejam naturais ou devidas à atividade humana, podem ser iniciadas por processos que modificam tanto a quantidade de energia absorvida do Sol quanto a quantidade de energia infravermelha emitida de volta para o espaço.
8 Mudanças climáticas podem, portanto, ser iniciadas por variações na energia recebida do Sol, mudanças nas quantidades e características dos gases de efeito estufa, partículas e nuvens, ou mudanças na refletividade da superfície da Terra. O desequilíbrio entre a radiação absorvida e emitida como resultado dessas mudanças será referido aqui como “forçamento climático” (também conhecido como “forçamento radiativo”) e em unidades de W/m². Um clima com forçamento positivo tenderá a provocar um aquecimento e um forçamento negativo um resfriamento. Mudanças climáticas agem no sentido de restabelecer o equilíbrio entre a energia absorvida do Sol e da energia infravermelha emitida para o espaço.
9 Em princípio, mudanças climáticas em uma ampla escala de tempo podem surgir a partir de variações dentro do próprio sistema climático, devido, por exemplo, às interações entre os oceanos e a atmosfera; neste documento, nos referimos a elas como “variabilidade interna do clima”. Tal variabilidade interna pode ocorrer porque o clima é um exemplo de um sistema caótico: que pode apresentar variações internas complexas imprevisíveis, mesmo na ausência de forçamentos climáticos discutidos no parágrafo anterior.
10 Há evidências muito fortes para indicar que mudanças climáticas ocorreram em uma ampla variedade de ritmos diferentes, de décadas a milhões de anos, e que a atividade humana é uma adição relativamente recente à lista de possíveis causas das mudanças climáticas.
11 A alternância entre períodos glaciais e interglaciais, nos últimos poucos milhões de anos, acredita-se terem sido uma resposta às mudanças nas características da órbita da Terra em torno do Sol. Enquanto estas levaram a pequenas variações no total de energia recebida do Sol, resultaram em mudanças significativas na sua distribuição geográfica e sazonal. As grandes mudanças do clima, na movimentação para dentro e para fora de períodos glaciais, são provas da sensibilidade do clima a mudanças no balanço energético da Terra, quer sejam atribuíveis a causas naturais ou à atividade humana.

Mecanismos de mudança global do clima
12 Uma vez que um mecanismo de forçamento climático provocou uma resposta do clima, as mudanças climáticas podem levar a outras mudanças; por exemplo, em resposta a um aquecimento, a quantidade de vapor de água deve aumentar, a extensão de neve e de gelo se espera que reduza e o montante e as propriedades das nuvens também podem mudar. Tais mudanças podem modificar a quantidade de energia absorvida do Sol, ou a quantidade de energia emitida pela Terra e por sua atmosfera, e levar a uma redução ou amplificação das mudanças climáticas.
13 Os efeitos globais das mudanças resultantes do forçamento climático determinam uma característica chave do sistema climático, conhecida como “sensibilidade climática” – esta é a quantidade de mudanças climáticas (medida pela alteração de equilíbrio em nível mundial na temperatura média da superfície), causada por uma determinada quantidade de forçamento climático. É freqüentemente citada (como será o caso aqui) a mudança de temperatura que, eventualmente, resultaria de uma duplicação nas concentrações de CO₂ desde a época pré-industrial, e é calculada para provocar um forçamento climático de cerca de 3,6 W/m².
14 A natureza do sistema climático é determinada pelas interações entre os movimentos da atmosfera e dos oceanos, a superfície terrestre, o mundo vivo e o mundo congelado. A taxa na qual o calor é transferido da superfície para as profundezas dos oceanos é um fator importante para se determinar a velocidade com que o clima pode mudar em resposta aos forçamentos climáticos.
15 Uma vez que as variações no clima podem resultar tanto de forçamentos climáticos como da variabilidade interna do clima, a detecção de mudanças climáticas forçadas em observações nem sempre é direta. Além disso, a detecção de mudanças climáticas em observações, além da variabilidade climática interna prevista, não está relacionada diretamente à atribuição de que a mudança observada é devida a uma determinada causa ou causas. A atribuição requer provas adicionais para fornecer uma ligação quantitativa entre a causa proposta e as mudanças climáticas observadas.

Modelagem do sistema climático
16 A compreensão atual da física (e cada vez mais da química e da biologia) do sistema climático é representada em uma forma matemática nos modelos climáticos, que são usados para simular o clima do passado e fornecer projeções de mudanças climáticas futuras possíveis. Os modelos climáticos também são usados para fornecer estimativas quantitativas e para auxiliar na atribuição das mudanças climáticas observadas a uma determinada causa ou causas.
17 Modelos climáticos variam muito em complexidade. O mais simples pode ser descrito por algumas equações, e pode representar o clima por meio da temperatura média global da superfície sozinho. Os modelos mais complicados e de uso intensivo de computadores representam muitos detalhes das interações entre os componentes do sistema climático. Estes modelos mais complexos representam variações de parâmetros como a temperatura, o vento e a umidade, com a latitude, a longitude e a altitude na atmosfera, e também representam variações semelhantes no oceano. Em modelos climáticos complexos, a sensibilidade climática surge como um resultado; nos cálculos simples, ela é especificada como uma variável ou aparece como uma consequência da simplificação (plausível) de suposições.
18 Através da aplicação de leis estabelecidas da dinâmica dos fluidos e da termodinâmica, o mais complexo os modelos climáticos simulam vários fenômenos meteorológicos importantes que determinam a clima. No entanto, as limitações do poder dos computadores significam que esses modelos não podem representar diretamente os fenômenos que ocorrem em escalas reduzidas. Por exemplo, nuvens individuais são representadas por métodos mais aproximados. Uma vez que existem várias maneiras de fazer essas aproximações, a representação pode variar nos modelos climáticos desenvolvidos nos diversos institutos climáticos. O uso destas diferentes aproximações leva a uma série de estimativas da sensibilidade climática, especialmente por causa das diferenças entre os modelos na resposta das nuvens às mudanças climáticas. Há esforços intensivos para comparar os modelos com as observações e uns com os outros. A disseminação dos resultados desses modelos fornece informações úteis sobre o grau de confiança na confiabilidade das projeções das mudanças climáticas.
19 Ao contrário dos modelos de previsão do tempo, os modelos climáticos não procuram fazer uma previsão o tempo em um determinado dia em um determinado local. Os modelos climáticos mais complexos, no entanto, simulam fenômenos climáticos individuais, tais como depressões nas latitudes médias e anticiclones, e tem como objetivo dar sequências às simulações do tempo possíveis, muito mais distante no futuro do que os modelos de previsão meteorológica. A partir de tais simulações, podem-se derivar as características do clima prováveis de ocorrer nas próximas décadas, incluindo as temperaturas médias e as temperaturas extremas.

Aspectos sobre as mudanças climáticas nos quais há ampla concordância
Mudanças na temperatura média da superfície global
20 Medições que mostram como a temperatura da superfície variou com o tempo em todo o mundo tornaram-se disponíveis a partir de 1850. A análise desses dados, em uma série de institutos, tenta levar em conta a evolução das distribuições das medidas, alterando-se as técnicas de observação e as mudanças ocorridas nos arredores de estações de observação (por exemplo, algumas áreas no entorno das estações tornam-se mais urbanas com o tempo, o que pode fazer com que as medições sejam menos representativas de áreas mais amplas).
21 Medições mostram que, em média, em todo o mundo, a superfície se aqueceu cerca de 0,8 graus centígrados (com uma incerteza de aproximadamente ± 0,2 °C) desde 1850. Este aquecimento não foi gradual, mas concentrou-se em dois períodos: de 1910 até 1940 e de 1975 até 2000. Os períodos de aquecimento são encontrados em três registros de temperaturas independentes sobre a terra, sobre o mar e nas águas superficiais dos oceanos. Mesmo dentro desses períodos de aquecimento, houve considerável variabilidade de ano para ano. O aquecimento também não foi geograficamente uniforme – algumas regiões, mais acentuadamente nas altas latitudes norte nos continentes, têm experimentado um maior aquecimento; algumas regiões tiveram um pequeno aquecimento, ou mesmo um ligeiro arrefecimento.
22 Quando essas temperaturas médias da superfície são calculadas em períodos de uma década, para remover algo da variabilidade de ano para ano, cada década desde os anos 1970 tem sido claramente mais quente (dadas as incertezas conhecidas) do que o exercício imediatamente anterior. A década 2000-2009 foi, globalmente, cerca de 0,15 °C mais quente do que na década 1990-1999.
23 Temperaturas locais são geralmente uma fraca indicação para as condições globais. Por exemplo, um inverno mais frio do que a média no Reino Unido não quer dizer que um clima mais frio do que a média se verifica a nível mundial. Da mesma forma, variações observadas nas temperaturas globais durante um período de poucos anos podem ser um guia enganador subjacente a tendências de longo prazo na temperatura global.

Outras mudanças no clima
24 Nem todos os aspectos do sistema climático têm sido observados durante um período tão longo como as temperaturas da superfície – por exemplo, aquelas baseadas em observações de satélites remontam, na melhor das hipóteses, aos anos 1970. As medições de outros aspectos do sistema climático também não são sempre realizadas com a mesma qualidade. Coletivamente, no entanto, elas oferecem muitas evidências de mudanças do clima coerentes com as mudanças de temperatura da superfície. Isso inclui aumentos na temperatura média tanto dos 700 metros acima dos oceanos como da troposfera (a baixa atmosfera, até 10-18 km), generalizada (embora não universal) diminuição no comprimento das geleiras das montanhas e aumento de nível médio do mar. Não tem sido observado um declínio global na área coberta por gelo marítimo flutuante no Oceano Ártico nos últimos 30 anos (embora tenha havido um pequeno aumento na área coberta pelo gelo marinho ao redor da Antártida).

Mudanças na composição da atmosfera global
25 Têm sido observados aumentos na concentração média de CO₂ de cerca de 280 partes por milhão (ppm) em meados do Século XIX para cerca de 388 ppm no final de 2009. As concentrações de CO₂ podem ser medidas no “ar antigo” aprisionado em bolhas no gelo, bem abaixo da superfície, na Antártica e na Groenlândia, que mostram hoje em dia concentrações superiores às que têm sido observadas nos últimos 800.000 anos, quando o CO₂ variou entre 180 e 300 ppm. Várias linhas de evidências apontam fortemente que a atividade humana é o principal motivo para o recente aumento, devido principalmente à queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), com menores contribuições devidas às mudanças de uso da terra e à fabricação de cimento. As evidências incluem a coerência entre cálculos do CO₂ emitido e que deveria ter se acumulado na atmosfera, a análise das proporções de diferentes isótopos de CO₂ e a quantidade de oxigênio no ar.
26 Estas observações mostram que cerca de metade do CO₂ emitido por atividades humanas desde a revolução industrial manteve-se na atmosfera. O restante foi absorvido pelos oceanos, solos e plantas, embora o montante exato para cada uma dessas individualmente seja menos conhecido.
27 Concentrações de muitos outros gases de efeito estufa têm aumentado. A concentração de metano mais que dobrou nos últimos 150 anos. Este aumento recente e rápido é sem precedentes nos dados disponíveis de 800.000 anos e evidências sugerem fortemente que ele surge principalmente como resultado da atividade humana.

Forçamento climático por variações nos gases de efeito estufa
28 Mudanças na composição atmosférica resultantes da atividade humana têm incrementado o efeito estufa natural, causando um forçamento climático positivo. Os cálculos, que são suportados pelo laboratório e por medições atmosféricas, indicam que estes adicionais gases têm provocado um forçamento climático durante a era industrial de cerca de 2,9 W/m², com uma incerteza de aproximadamente ± 0,2 W/m². Outros mecanismos de mudanças climáticas resultantes da atividade humana são mais incertos (ver adiante); cálculos que levam em conta esses outros forçamentos positivos e negativos (incluindo o papel das partículas atmosféricas) indicam que o efeito líquido de toda a atividade humana tem provocado um forçamento climático positivo de cerca de forçar 1,6 W/m² com uma incerteza estimada de cerca de ± 0,8 W/m².
29 A aplicação dos princípios físicos estabelecidos mostra que, mesmo na ausência de processos que amplificam ou reduzem as mudanças climáticas (ver parágrafos 12 e 13), a sensibilidade do clima seria em torno de 1 °C para uma duplicação das concentrações de CO₂. Um forçamento climático de 1,6 W/m² (ver parágrafo anterior) poderia, neste caso hipotético, levar a um aquecimento globalizado da superfície de cerca de 0,4 °C. No entanto, como será discutido no parágrafo 36, espera-se que a mudança real, após a contabilização dos processos adicionais, seja maior do que isso.

O dióxido de carbono e o clima
30 Evidências de núcleos de gelo indicam um papel ativo do CO₂ no sistema climático. Isto ocorre porque a quantidade de carbono retido nos oceanos, solos e plantas depende da temperatura e de outras condições. Em outras palavras, as mudanças nas emissões de CO₂ podem levar às mudanças climáticas e as mudanças climáticas podem também alterar as concentrações de CO₂.

Aspectos das mudanças climáticas onde existe ampla concordância, mas contínuo debate e discussão
O ciclo do carbono e do clima
31 Uma vez que as concentrações atmosféricas de CO₂ são aumentadas, os modelos de ciclo do carbono (que simulam as trocas de carbono entre a atmosfera, os oceanos, os solos e as plantas) indicam que levaria muito tempo para que um aumento de CO₂ desaparecesse, o que é principalmente devido às reações químicas conhecidas nos oceanos. O conhecimento atual indica que, mesmo se houvesse uma cessação completa das emissões de CO₂ da atividade humana a partir de hoje, seriam necessários vários milênios para as concentrações de CO₂ para retornarem às concentrações da era pré-industrial.

Outros agentes das mudanças climáticas globais
32 Além das variações nas concentrações de gases de efeito estufa, há um grande número de contribuições não tão bem caracterizadas para os forçamentos climáticos, tanto naturais como induzidas pelos humanos.
33 Erupções vulcânicas são exemplos de um mecanismo de forçamento climático natural. Uma erupção vulcânica individual tem seus maiores efeitos sobre o clima apenas por alguns anos após a erupção, e esses efeitos são dependentes da localização, do tamanho e do tipo de erupção.
34 Estima-se que forçamentos naturais devidos às variações sustentadas da energia emitida pelo Sol sobre a Terra nos últimos 150 anos foram pequenos (cerca de 0,12 W/m²). Porém, observações diretas da energia emitida pelo Sol só se tornaram disponíveis em 1970 e as estimativas sobre períodos mais confiáveis dependem da observação de mudanças em outras características do Sol. Uma série de mecanismos tem sido propostos e poderiam reduzir ou ampliar o efeito das variações solares, mas estes continuam a ser áreas da pesquisa ativa.
35 A atividade humana resulta em emissões de diversos gases de vida curta (como o monóxido de carbono e o dióxido de enxofre) e partículas na atmosfera. Isto afeta as concentrações atmosféricas de outros gases importantes para o clima, tais como o ozônio e outras partículas que levam a um forçamento climático. Os cálculos, acoplados a uma variedade de observações atmosféricas, indicam que as partículas têm causado um forçamento climático negativo de cerca de 0,5 W/m², com uma incerteza de ± 0,2 W/m². As partículas também influenciam diretamente as propriedades das nuvens, sendo este efeito mais incerto discutido no parágrafo 47.

Sensibilidade climática
36 Os modelos climáticos mais complexos, apoiados por observações, permitem calcular a sensibilidade climática na presença de processos que amplificam ou diminuem o tamanho da resposta do clima. O aumento de vapor de água, sozinho, em resposta a um aquecimento, estima-se que aproximadamente duplique a sensibilidade do clima em relação ao seu valor original, na ausência desse processo ampliado. Permanecem, no entanto, as incertezas em relação ao percentual da quantidade de vapor de água que seria alterado, e como essas alterações seriam distribuídas na atmosfera, em resposta a um aquecimento. Os modelos climáticos indicam que a sensibilidade climática global (para uma hipotética duplicação do CO₂ na atmosfera) é provável que fique no intervalo de 2 °C a 4,5 °C; esse intervalo é devido principalmente às dificuldades em simular o efeito geral de resposta das nuvens, para as mudanças climáticas mencionadas anteriormente.

Atribuição da mudança climática
37 O tamanho e a natureza sustentada do aquecimento médio global da superfície observado em décadas e longo prazos excede largamente a variabilidade interna do clima simulada pelos modelos climáticos complexos. A menos que essa variabilidade tenha sido subestimada, as mudanças do clima observadas devem resultar de forçamentos climáticos naturais e/ou induzidos pelo homem.
38 Quando apenas forçamentos climáticos naturais são colocados em modelos climáticos, os modelos são incapazes de reproduzir o tamanho do aumento observado na temperatura média global da superfície ao longo dos últimos 50 anos. No entanto, quando os modelos incluem estimativas dos forçamentos resultantes da atividade humana, eles podem reproduzir o aumento. O mesmo resultado é encontrado, embora com uma maior variabilidade entre os diferentes modelos, para a simulação das mudanças observadas da temperatura da superfície para cada um dos continentes habitáveis separadamente.
39 Quando incertezas conhecidas em ambas as tendências observadas e os modelos climáticos são considerados, as variações observadas na vertical e nas diferentes latitudes das mudanças de temperatura também são consistentes com as esperadas por um papel dominante da atividade humana. Há controvérsias em relação ao aumento do aquecimento em função da altitude nas regiões tropicais, dado por modelos climáticos, é ou não é suportado por medições de satélites.

Mudanças climáticas futuras
40 Como ocorre com quase todas as tentativas de se prever condições futuras, as projeções sobre mudança climáticas no futuro dependem de uma série de fatores. Emissões futuras devidas à atividade humana dependem das mudanças tecnológicas e sociais da população e não podem ser conhecidas de maneira confiável. As incertezas subjacentes da ciência do clima e da incapacidade de prever com precisão o tamanho dos mecanismos de forçamento naturais do clima futuro significam que as projeções devem ser feitas levando-se em conta o leque de incertezas entre essas diferentes áreas.
41 A avaliação de 2007 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) fez projeções sobre as mudanças climáticas futuras usando um número de possíveis cenários de emissões futuras, com base em uma gama diversificada de suposições. A melhor estimativa do IPCC é que as temperaturas médias globais de superfície seriam entre 2,5 e 4,7 °C maior em 2100, em comparação aos níveis pré-industriais. A gama completa de aumentos de temperatura previstos até 2100 encontra-se entre 1,8 e 7,1 °C baseada em vários cenários e incertezas na sensibilidade climática.
42 Mesmo no caso extremamente improvável de que não haja aumento no forçamento climático, um aquecimento adicional seria de se esperar que ocorra como os oceanos respondendo lentamente aos forçamentos climáticos existentes no valor de poucos décimos de grau centígrado até o ano de 2100.
43 A incerteza no aquecimento previsto como resultado da atividade humana ao longo das próximas duas décadas é menor, sendo a faixa de 0,2 a 0,4 °C por década. Em relação a estes prazos mais curtos, a mudança real pode ser reduzida ou ampliada significativamente variabilidade climática interna e forçamentos climáticos naturais.
44 O aumento das temperaturas está previsto para ser maior em terra, nos continentes ao norte, no inverno. Menos aquecimento está previsto, por exemplo, sobre o Atlântico Norte. Os modelos climáticos tendem a prever um aumento geral das precipitações em áreas com valores já elevados de precipitação e, geralmente, a diminuição em áreas com baixas quantidades de precipitação.
45 Por causa da expansão térmica dos oceanos, é muito provável que, por muitos séculos, a taxa de aumento do nível do mar global será pelo menos tão grande como a taxa de 20 centímetros por século que tem sido observada ao longo do século passado. O parágrafo 49 discute a adicional, mas mais incerta, contribuição à elevação do nível do mar devido ao derretimento do gelo sobre a terra.

Aspectos que ainda não são bem entendidos
46 Observações ainda não são boas o suficiente para determinar, com segurança, alguns aspectos da evolução do clima, quer em relação a forçamentos ou a mudanças climáticas, ou para ajudar a estabelecer limites mais precisos da sensibilidade climática. Observações das mudanças de temperatura da superfície anteriores a 1850 também são escassas.
47 Como já foi mencionado, as projeções das mudanças climáticas são sensíveis aos detalhes das representações das nuvens nos modelos. Partículas provenientes tanto das atividades humanas como de fontes naturais têm potencial para influenciar fortemente as propriedades das nuvens, com consequências para as estimativas de forçamentos climáticos. O entendimento científico atual sobre este efeito é pequeno.
48 Mecanismos adicionais que influenciam a sensibilidade climática foram identificados, incluindo a resposta do ciclo do carbono para as mudanças climáticas. Por exemplo, a perda de carbono orgânico atualmente armazenado nos solos. O efeito líquido das mudanças no ciclo do carbono em todos os modelos atuais é o aumento do aquecimento, por uma quantia que varia consideravelmente de modelo para modelo, devido às incertezas sobre a forma de representar os processos relevantes. A força de absorção do CO₂ pela terra e pelos oceanos no futuro (que, juntos, são atualmente responsável por capturar cerca de metade das emissões derivadas da atividade humana – ver parágrafo 26) é muito mal compreendida, principalmente por causa de lacunas no nosso entendimento da resposta dos processos biológicos de evolução tanto das concentrações de CO₂ quanto do clima.
49 Há insuficiente compreensão atualmente sobre um derretimento maior e perdas da camadas de gelo na Groenlândia e na Antártica Ocidental para prever exatamente quanto a taxa de elevação do nível do mar vai aumentar acima do observado no século passado (ver parágrafo 45) para um dado aumento da temperatura. Da mesma forma, a possibilidade de grandes mudanças na circulação do Atlântico Norte não pode ser avaliada com confiança. O último limita a capacidade de prever com certeza que as mudanças climáticas ocorreriam na Europa Ocidental.
50 A capacidade da atual geração de modelos para simular alguns aspectos da mudança climática regional é limitada, a julgar pela dispersão dos resultados de diferentes modelos; há pouca confiança nas projeções específicas da futura mudança climática regional, com exceção de escalas continentais.

A evolução da ciência do clima
51 A ciência das mudanças climáticas tem avançado significativamente nos últimos 20 anos, como resultado de muitos fatores. Estes incluem métodos aperfeiçoados para a manipulação de séries de dados sobre o clima de longo prazo, bases de dados sempre crescentes de observações climáticas, as técnicas de medições melhoraram, inclusive as de satélites, uma melhor compreensão do sistema climático, melhores métodos para simular o sistema climático e o aumento do poder de computadores.
52 Uma indicação desses avanços é o aumento do grau de confiança na atribuição de mudanças do clima à atividade humana, tal como expresso nas conclusões-chave do IPCC pelo Grupo de Trabalho 1 (GT1) nas suas avaliações.
53 Na sua primeira avaliação, publicada em 1990, o GT1 do IPCC concluiu que “o tamanho do aquecimento [na superfície observada] é coerente com as previsões dos modelos climáticos [que simulam o impacto da atividade humana], mas também é da mesma magnitude a variabilidade natural do clima”. Em sua segunda avaliação, publicado em 1995, concluiu que “o balanço das evidências sugere que há uma influência humana perceptível sobre as mudanças climáticas”. Sua quarta e mais recente avaliação, publicada em 2007, concluiu mais que “o aumento observado em escala global da temperatura média [da superfície] desde meados do Século XX muito provavelmente se deve ao aumento observado de concentrações antropogênicas de gases de efeito estufa”.
54 Incertezas remanescentes são objeto de pesquisas em curso no mundo inteiro. Algumas incertezas, provavelmente, nunca serão significativamente reduzidas, por causa de, por exemplo, a falta de observações de mudanças no passado para alguns aspectos relevantes tanto dos forçamentos climáticos quanto das mudanças climáticas.
55 Outras incertezas podem começar a ser resolvidas. Por exemplo, os satélites de agora incorporam aperfeiçoamentos das técnicas para medições das características das nuvens em todo o globo. O uso de modelos climáticos de previsão meteorológica do dia-a-dia vai permitir, por exemplo, a identificação dos erros na representação das nuvens nos modelos; qualquer erro vai levar a erros nas previsões de temperaturas máximas e mínimas (que são facilmente observáveis). Novos computadores de alto desempenho permitirão o uso de modelos climáticos para representar alguns fenômenos de menor dimensão (incluindo sistemas de nuvens e os detalhes das tempestades tropicais) diretamente, e espera-se que sejam uma melhoria na confiabilidade das previsões regionais.
56 Resta a possibilidade de que vários aspectos ainda desconhecidos do clima e das mudanças do clima possam surgir e levar a mudanças significativas na nossa compreensão.

Observações finais
57 Há fortes evidências de que mudanças nas concentrações de gases de efeito estufa devido às atividades do ser humano são a causa dominante do aquecimento global que tem ocorrido no último meio Século. Esta tendência de aquecimento deve continuar, assim como as mudanças nas precipitações em longo prazo, em muitas regiões. O maior e mais rápido aumento do nível do mar é provavelmente o que terá profundas implicações para as comunidades costeiras e nos ecossistemas.
58 Não é possível determinar exatamente o quanto a Terra vai aquecer ou exatamente como o clima vai mudar no futuro, mas estimativas cuidadosas das potenciais mudanças e das incertezas associadas têm sido feitas. Os cientistas continuam a trabalhar para diminuir estas áreas de incerteza. A incerteza pode funcionar nos dois sentidos, pois as mudanças e seus impactos podem ser menores ou maiores do que os previstos.
59 Como muitas decisões importantes, escolhas de políticas sobre mudanças climáticas têm que ser feitas na ausência de conhecimento perfeito. Mesmo que as incertezas remanescentes sejam substancialmente resolvidas, a grande variedade de interesses, culturas e crenças da sociedade é que fazem com que um consenso sobre tais escolhas seja difícil de alcançar. No entanto, os potenciais impactos das mudanças climáticas são suficientemente graves que decisões terão de ser tomadas. A ciência climática – incluindo o conjunto de conhecimentos que já está bem estabelecido, e os resultados de pesquisas futuras – é a base essencial para projeções sobre o clima futuro e planejamento, e deve ser um componente vital da argumentação pública nesta área complexa e desafiadora.

O texto acima é uma tradução livre do documento “Climate Change: Summary of Science”, publicado por “The Royal Society of Science” em setembro de 2010 e citado no post anterior. Para fazer o download dessa tradução em formato PDF, clique aqui. Para ver o original, bibliografia e referências, clique aqui.

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10 Responses to “Mudanças climáticas: um resumo da ciência”


  1. 1 Jorge Costa 27 janeiro 2011 às 12:35 am

    Parabéns! Possívelmente o melhor blog da internet brasileira! É tudo quase perefeito. Um forte Abraço.
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  2. 2 camila 14 fevereiro 2011 às 4:51 pm

    Parabéns! Adorei a explicação! Um abraço e eu continuo pesquisando sobre o aquecimento global.

  3. 3 samanta steffaniy 05 abril 2011 às 9:46 am

    Ótimo trabalho, adorei, é muito legal, é quase tudo perfeito!!

  4. 4 elielson barbosa 18 abril 2011 às 10:21 am

    Parabéns, gostei muito, tá muito bem explicado.

  5. 5 isabele mesquita 03 agosto 2011 às 10:00 pm

    Adorei a explicação, bem resumida, bem dividida em quase 60 temas, muito bom, eu li detalhe por detalhe, muito bom… parabéns!

  6. 6 anna paula 26 julho 2012 às 7:09 pm

    Muito legal.

  7. 7 jonata 08 junho 2013 às 9:13 pm

    Gostei, mais não resume tudo o que eu pedi…

  8. 8 vikinger@bol.com.br 09 junho 2013 às 9:11 am

    Duas observações: “há fortes evidências de que mudanças nas concentrações de gases de efeito estufa devido às atividades do ser humano são a causa dominante do aquecimento global que tem ocorrido no último meio Século”, e “no entanto, os potenciais impactos das mudanças climáticas são suficientemente graves que decisões terão de ser tomadas. A ciência climática – incluindo o conjunto de conhecimentos que já está bem estabelecido, e os resultados de pesquisas futuras”. Em relação à primeira: o que então causou o aquecimento verificado entre 1910 e 1945, que teve praticamente a mesma aceleração e amplitude desde aquecimento da última metade do século passado (1980-2000)? Lembrem-se que a concentração de CO2 na atmosfera era muito mais baixa. Em relação à segunda, é a constatação que não há nada de concreto em mãos, apenas simulações de modelos que já se mostraram falhos, como pode ser ver aqui: http://jonova.s3.amazonaws.com/graphs/model-trend/cmip5-73-models-vs-obs-20n-20s-mt-5-yr-means1.png. Tudo o que está sendo feito em relação ao assunto tem apenas o princípio da precaução de fundo. Elementos concretos e provas empíricas não existem. Ainda, o CO2 como forçante das temperaturas embora “provado” em laboratório, no mundo real ainda não foi. Por uma questão de grandezas e outros fatores envolvidos. Medidas de CO2 químico comprovam que os níveis deste gás já foram muito maiores na atmosfera em tempos recentes, conforme se vê aqui: http://i1283.photobucket.com/albums/a541/PatriotPost/ScreenShot2013-06-07at100841AM_zpscf85a5b0.png. Ver todo o post em http://patriotpost.us/opinion/18551). Ou seja, tudo o que nos disseram nos últimos 25 anos está totalmente comprometido quanto a credibilidade e apenas os grandes interesses políticos e econômicos envolvidos, sustentados por ativistas e fanáticos climáticos e cientistas e políticos corrompidos etc etc ainda tentam empurrar com a barriga esta farsa.

  9. 9 Camylla 28 agosto 2013 às 7:19 pm

    Legal, bem explicado, tanto tirou as minhas duvidas como me ajudou em um super trabalho!


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