Não há evidências convincentes sobre o declínio das florestas tropicais

Afirmações de que as florestas tropicais estão declinando não são suportadas pelas duras evidências, de acordo com nova pesquisa da Universidade de Leeds.

Este grande desafio ao senso comum é o surpreendente resultado de um estudo publicado em 7/1/08 na Academia de Ciências Norte-Americanas pelo Dr. Alan Grainger, catedrático em geografia e um dos principais especialistas do mundo em desmatamento tropical.

“De tantos em tantos anos, nós temos uma nova estimativa da taxa anual do desmatamento tropical,” disse o Dr. Grainger. “Parecem sempre mostrar que a estas maravilhosas florestas resta pouco tempo de vida. Infelizmente, todos supõem que o desmatamento está acontecendo e não observam uma perspectiva mais ampla – o que está acontecendo às áreas de floresta como um todo.”

Na primeira tentativa em muitos anos de se fazer um mapa da tendência de longo prazo nas áreas de floresta tropical, ele gastou mais de três anos analisando detalhadamente todos os dados disponíveis das Nações Unidas – e encontrou alguns problemas sérios.

“Descobri erros e inconsistências nos dados que levantaram muitos questionamentos em relação à sustentação convincente para o quadro geral normalmente aceito de declínio das florestas tropicais nos últimos 40 anos,” disse. “Os cientistas pelo mundo inteiro que usaram estes dados para fazer previsões sobre a extinção das espécies e o papel das florestas nas mudanças globais do clima deveriam revisar suas conclusões à luz do meu estudo.”

O Dr. Grainger não afirma que o desmatamento tropical não está ocorrendo, pois há abundantes evidências para isso. Mas devido à falta de monitoramento científico freqüente, algo para o que tem feito campanha por 25 anos, nós não podemos usar os dados disponíveis para determinar uma tendência global de longo prazo nas áreas das florestas tropicais com precisão.

“O quadro é muito mais complicado do que pensou previamente,” disse. “Não há um efetivo declínio a longo prazo, o que sugere que o desmatamento está sendo acompanhado por muito mais reflorestamento natural que nós não consideramos.”

O Dr. Grainger examinou primeiramente os dados publicados a cada 10 anos pela Organização para Alimentos e Agricultura das Nações Unidas (FAO) desde 1980. Estes cobrem todas as florestas nos trópicos úmidos e secos e parecem indicar o declínio. A Avaliação Global dos Recursos Florestais da FAO em 2000, por exemplo, mostrou que a área total das florestas tropicais caiu de 1,926 bilhões de hectares para 1,799 bilhões de hectares entre 1990 e 2000. Dez anos antes, porém, a mesma avaliação da FAO diz que a área total das florestas tropicais caiu de 1,910 bilhões de hectares para 1,756 bilhões de hectares, nos mesmos 90 países, entre 1980 e 1990.

“Mesmo com eventuais correções aos estudos, a tendência dos anos 90 era praticamente a mesma dos anos 80,” disse o Dr. Grainger. “Os erros envolvidos em fazer estimativas para a área de florestas poderiam facilmente ser da mesma ordem que a área da floresta diminuída nos 10 anos precedentes. Mesmo se você tomar um cuidado enorme, como a FAO, eu acredito que os erros grandes são inevitáveis se você produzir estimativas globais agregando estatísticas nacionais de muitos países. Isto tem implicações importantes para muitos cientistas que confiam nos dados da FAO.”

Erros em estatísticas nacionais são mais elevados em florestas nos trópicos secos do que em florestas nos trópicos úmidos. Em lugares próximos ao equador, tais como a Amazônia, Bornéu e a bacia de Congo, ele repetiu o processo apenas para as florestas tropicais úmidas com dados diferentes, na esperança de obter um panorama mais desobstruído. Desta vez, não encontrou nenhuma evidência para o declínio, desde o início dos anos 70. Assim, quando sua própria estimativa em 1983 da área da floresta tropical úmida em 1980 era de 1,081 bilhões de hectares, os últimos dados dos satélites conduziram a uma estimativa de 1,181 bilhões de hectares para os mesmos 63 países em 2000.

Ele é cauteloso em relação à ligeira ascensão aparente. “Nós esperávamos ver algum aumento nas estimativas quando usamos dados de satélites mais precisos. Isto também aparece nos dados da FAO. É pena que somente nos últimos 10 anos nós tenhamos começado a fazer pleno uso da tecnologia dos satélites à nossa disposição.”

Apesar dos grandes erros inerentes às estimativas atuais, a falta de declínio aparente na área total das florestas tropicais úmidas sugere que o desmatamento está sendo compensado pelo reflorestamento natural numa taxa mais elevada do que se havia pensado inicialmente. O Dr. Grainger usa os dados do último relatório da FAO, publicado em 2006, para mostrar que em alguns países, tais como Gâmbia e Vietnam, a área da floresta realmente expandiu-se desde 1990, porque a taxa de reflorestamento excedeu a taxa de desmatamento. Acredita que um incremento no reflorestamento natural é um precursor lógico à interrupção da taxa de desmatamento líquido para obter-se um lucro líquido do reflorestamento. Esse já é o tema de alguns estudos no Brasil, no Equador e na Índia, mas os dados disponíveis são escassos para uma análise global.

Para dispormos de dados mais confiáveis, o Dr. Grainger diz que necessitamos de um Observatório das Florestas Mundiais para monitorar as mudanças nas florestas nos trópicos e em outras partes. “O que está acontecendo às florestas tropicais é tão importante, para os povos de países tropicais e para as tendências futuras na biodiversidade e no clima global, que nós não podemos prescindir de investimentos em um programa de monitoramento científico independente que possa combinar dados dos satélites e da terra para termos um panorama confiável,” disse ele.

“Um Observatório das Florestas Mundiais possibilitaria que equipes de pesquisa existentes na Europa, nos EUA e em outras partes trabalhassem juntas e asseguraria que seriam financiadas corretamente para continuar mapeando as florestas tropicais pelo menos a cada cinco anos. Poderia também empreender um projeto consistente para reavaliar todos os dados de satélites e os demais dados disponíveis do passado e reconstruir a tendência nas áreas de florestas tropicais desde 1970. Somente então nós estaríamos à vontade para dizermos realmente o que aconteceu às florestas tropicais nos últimos 40 anos.”

O post acima é uma tradução livre do artigo de Alan Grainger “Difficulties in tracking the long-term global trend in tropical forest area”, publicado pela Academia Nacional de Ciências dos EUA.

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