Qual temperatura?

Para ver que “temperatura global” não faz sentido, adeptos do IPCC devem pôr a cabeça no forno, os pés no freezer e tentar tirar a média

Na conferência que fez em Tóquio (Japão) sobre o aquecimento global, Vaclav Klaus, presidente da República Tcheca, disse que o pânico criado pelas mudanças do clima e supostas conseqüências catastróficas para a humanidade não devem ficar sem resposta da maioria silenciosa, que pensa racionalmente, pois elas não se sustentam em argumentos racionais, que sua substância não é a ciência, mas o abuso da ciência pelo ambientalismo, que é uma ideologia não liberal e autoritária, que despreza a liberdade e a prosperidade. Disse ainda que o debate não é sobre temperatura e CO₂, é uma “variante do velho confronto entre a liberdade e o livre mercado versus controle político e dirigismo da atividade humana, vindo de cima”.

Cabe lembrar: o ambientalismo surgiu com o biólogo alemão e expoente do pangermanismo Ernst Haeckel, que cunhou o conceito de “Lebensraum”, espaço vital à expansão do nazismo. Sua frase “política é biologia aplicada” justificou o racismo e o nacionalismo germânicos.

Na sua conferência sobre o clima na ONU, em 2007, Klaus disse que essa questão se resolveria se cessasse o monopólio das manifestações unilaterais do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, na siga em inglês) e a ONU ouvisse os cientistas críticos dos seus métodos e conclusões. A proposta nem foi levada em consideração. Por isso, muitos cientistas criaram o NIPCC (Painel Não-Governamental sobre Mudança Climática, na siga em inglês) para analisar toda a literatura científica e técnica sobre o clima, incluindo os estudos ignorados pelo IPCC, órgão governamental.

O primeiro relatório do NIPCC, editado por Fred Singer, foi publicado em 2008 e apresentado por Frederick Seitz, ex-presidente da Academia Nacional de Ciências dos EUA e da Sociedade Americana de Física e crítico acerbo dos métodos, procedimentos, conclusões e sugestões do IPCC. O relatório, elaborado por 23 cientistas renomados, especializados na questão, pode ser lido na internet: “Nature, Not Human Activity, Rules the Climate” [Natureza, Não a Atividade Humana, Controla o Clima].

É uma contestação científica cabal das conclusões do IPCC. Diz que ele usou dados errados; que é parcial a compreensão científica dos fenômenos atmosféricos; que a concentração mais elevada do CO₂ na atmosfera é mais benéfica à vida animal, à vegetal e à saúde humana que as concentrações menores; que é insignificante a contribuição do homem no aquecimento; que os próprios dados do IPCC e do relatório do Programa Científico para Mudança do Clima provam que as mudanças de temperatura são inferiores às calculadas pelo IPCC; que os computadores não são confiáveis para prever o clima e que a causa principal do aquecimento e resfriamento decenais da Terra derivam do Sol e da radiação cósmica, que também é responsável pelas mudanças climáticas comprovadas dos últimos 500 milhões de anos. Em vários períodos desses anos, a concentração do CO₂ foi mais de 20 vezes superior à atual e o clima na Terra continuou estável.

O matemático N. Wiener disse que quem usa computador para prever o clima estão iludindo o público ao pretender ser a atmosfera previsível.

Pior: os dados sobre a “temperatura global” que o IPCC calcula não têm significado científico, pois não existe o que ele diz ser a “temperatura da Terra”: não há como medi-la, pois se trata (desculpe-me o leitor o termo científico) de questão relacionada à “termodinâmica dos sistemas fora do equilíbrio”, que não comportam uma única temperatura por ser um fenômeno local, e não global. Só cabe sugerir a leitura amena do artigo “Does a Global Temperature Exist?” [Existe uma Temperatura Global?] (“Journal of Non Equilibrium Thermodynamics”, vol. 32, 1, fevereiro de 2007), de C. Essex, R. McKitrick e B. Andersen, das universidades de Ontário, Guelph e Copenhague.

É muito pior: o IPCC calcula a “temperatura global” tomando a média das observadas em milhares de locais e em datas diferentes, outro contra-senso, pois tal média não tem significado físico nem matemático e há infinitas maneiras de calculá-la.

Os meteorologistas usam mais de cem (boletim da Sociedade Americana de Meteorologia, 75, 1997, 2.837 a 2.849). Qual é a correta? Se o leitor somar todos os números do catálogo telefônico de São Paulo e dividir pelo número de telefones, pode falar do “telefone médio” de São Paulo, um conceito inútil, e compará-lo com o de um catálogo anterior e dizer se o “telefone médio de São Paulo” aumentou ou não. Mas para que isso serve? A média de temperatura de sistemas fora do equilíbrio não tem sentido. Nesse caso, a temperatura é um efeito local, e não global. Para comprovar isso, os adeptos do IPCC, porque não entendem de ciência, devem colocar a cabeça num forno a 100 °C e os pés num congelador a -50 °C e verificar se estão na temperatura média de 25 °C.

José Carlos de Almeida Azevedo, 76, é doutor em física pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts, EUA). Foi reitor da UnB (Universidade de Brasília).

Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 13/10/2008

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