Um novo amanhecer

Os benefícios das políticas sobre as mudanças climáticas são limitados e dispendiosos. Em vez disso, o presidente eleito (dos EUA) tem que avaliar friamente prioridades concorrentes, diz Bjorn Lomborg

Crianças raspam o fundo de uma panela de mingau durante um programa de distribuição de alimentos na África

A maioria das gerações enfrenta grandes e assustadores desafios. Mas poucas gerações têm a promessa de lideranças que podem abordá-los racionalmente. Felizmente, o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, está singularmente posicionado para conseguir tal proeza do mundo e ajudar a resolver alguns dos seus temas mais entrincheirados.

Ele vai ser inundado com sugestões quanto ao que fazer em primeiro lugar – talvez ninguém mais apaixonado do que aqueles que advogam lidar com as mudanças climáticas provocadas pelo homem. A ele vai ser dito que é a maior ameaça que a humanidade enfrenta e que a sua solução é a missão da nossa geração. Em muitos locais, o aquecimento global já está posicionado como uma espécie de super-problema: um desafio de tal amplitude que abafa todos os outros.

A ciência e a economia dizem outra coisa. O “consenso científico” das Nações Unidas espera aumentos de temperatura entre 1,5 e 4,0 graus Celsius até o final do século, levando (por exemplo) a aumentos do nível do mar entre 45 e 60 centímetros. Ora, essa é uma elevação totalmente gerenciável e não é muito diferente do aumento do nível do mar de cerca de 30 centímetros que se verificou ao longo dos últimos 150 anos. E, enquanto o aquecimento pode significar cerca de 400 mil mortes a mais, relacionadas com ondas de calor, ele também terá efeitos positivos, tais como menos 1,8 milhões de mortes relacionadas com menos frio, de acordo com uma revisão da estimativa global, publicada na Ecological Economics – algo que é raramente relatado.

A maioria dos modelos econômicos mostra que o total dos prejuízos até ao final do século será de cerca de 3 % do PIB mundial – nada trivial, mas certamente não é o fim do mundo. Lembre-se que a ONU espera que, até o final do século, uma pessoa média no mundo será de cerca de 1.400 % mais rica.

E, no entanto, a tomada de decisões macro políticas, tais como o Protocolo de Quioto, tem sido apoiada por uma percepção enferma da iminência de castigo. O compromisso de Quioto pede que a economia global gaste US$ 180 bilhões por ano a cada ano para mitigar as emissões de CO₂ neste século, com uma eventual redução da temperatura global de quase imensuráveis 0,17 graus Celsius. Talvez seja a hora de perguntar se isto pode realmente ser a nossa primeira prioridade em termos de missão da nossa geração.

Isso realmente não seria importante se tivéssemos recursos infinitos e se já tivéssemos resolvido todos ou a maioria dos outros problemas.

Mas nós não temos e nós não o fizemos. Especialmente no atual clima econômico, temos que priorizar aquilo que fazemos – nós temos que analisar friamente os custos e benefícios das políticas.

Se não o fizermos, nós, no mundo desenvolvido, vamos amargar um drama moral: vamos desperdiçar uma extraordinária soma de dinheiro fazendo relativamente pouco bem, enquanto milhões de pessoas sofrem e morrem de problemas que poderíamos facilmente ter passado à história.

Tomemos a fome como exemplo. Fundamentos exaltados para a ação climática são baseados na hipótese de que a produção agrícola pode diminuir por causa do aquecimento global, especialmente no mundo em desenvolvimento. Mas, novamente, precisamos de um contexto. Modelos integrados mostram que, mesmo com as hipóteses mais pessimistas, o aquecimento global seria responsável por uma redução na produção agrícola mundial de 1,4 % até o final do século. Uma vez que se espera que a produção agrícola mais que duplique no mesmo período, isto significa que as alterações climáticas farão com que a produção alimentar no mundo não se duplique em 2080, mas em 2081.

O aquecimento global, isoladamente, pode provavelmente fazer com que o número de desnutridos aumente para 28 milhões no final do século. No entanto, o importante é que o mundo já acolhe mais de 900 milhões de desnutridos hoje em dia; e vamos acrescentar pelo menos mais três bilhões de pessoas à humanidade antes do final do século; e o número total de desnutridos em 2100 provavelmente irá cair para cerca de 100 milhões. Em um mundo muito mais rico, tais remanescentes com fome serão inteiramente uma conseqüência da falta de vontade política.

Crucialmente, a luta contra a fome através das políticas de mudanças climáticas é espantosamente ineficiente. Cumprindo Quioto, com US$ 180 bilhões ao ano, esperamos evitar mais dois milhões de famintos até o final do século. Mas gastando apenas US$ 10 bilhões ao ano, a ONU estima que poderíamos evitar 229 milhões de pessoas com fome hoje.

Tudo o que for gasto em políticas climáticas salvaria uma pessoa da fome em 100 anos, mas poderia salvar 5.000 pessoas hoje.

Essa mesma abordagem se confirma, se olharmos para as inundações, para as ondas de calor, para os furacões, para as doenças ou para a água. Quantidades de carbono são uma resposta ineficaz. Políticas diretas – tais como acabar diretamente com a fome – fazem muito mais.

Alguns dizem que só precisamos ir muito mais longe na redução das emissões de carbono. Mas mais de uma má solução não a tornará melhor. Mesmo se pudéssemos parar completamente com as mudanças climáticas através da redução das emissões de carbono (uma proposta totalmente irrealista), 97% do problema da fome permaneceriam, porque somente 3% dele é causado pelo aquecimento global.

Mais genericamente, uma vez que as mudanças climáticas agravam principalmente muitos dos atuais problemas do mundo, reduzir as emissões só vai trazer benefícios marginais. Se o aquecimento global é a proverbial palha que vai quebrar as costas do camelo, gastar enormes somas na remoção da palha é uma má estratégia, em comparação com a redução dos camelos excedentes na base de carga a custo muito menor.

O Sr. Obama prometeu uma um tanto ambiciosa estratégia climática de investir US$ 150 bilhões em novas tecnologias e uma duplicação da ajuda estrangeira para US$ 50 bilhões. Com a economia norte-americana titubeante, ele deu a entender que pode ter que voltar atrás nos US$ 150 bilhões de investimentos. O vice-presidente eleito afirmou claramente que a duplicação da ajuda poderia ter de ser adiada.

Agora, mais do que nunca, é preciso haver soluções de compromisso entre prioridades concorrentes. Suas ajudas aos estrangeiros devem centrar-se em áreas como políticas diretas contra a desnutrição, de imunização, de pesquisa agrícola e de desenvolvimento.

Estes seriam alguns dos melhores investimentos possíveis. Por quê? Neste ano, uma equipe com os mais renomados economistas do mundo, incluindo cinco prêmios Nobel, identificaram os melhores investimentos para melhorar o mundo em um processo chamado Consenso de Copenhague. Eles descobriram que, se o aumento dos gastos com ajuda ao desenvolvimento estrangeiro se concentrasse nestas áreas, poderia atingir um resultado de 15 a 25 vezes mais positivo que o seu custo.

Também deveríamos lidar com as alterações climáticas, mas em uma maneira mais inteligente.

Quioto mostrou o que não fazer. Em 1997, os políticos fizeram solenes promessas que deveriam ser cumpridas no futuro. Bem, o futuro chegou e a maioria dos países não querem pagar o compromisso – não apenas os Estados Unidos, mas também a União Européia, o Japão e o Canadá.

Fazer promessas ainda maiores na próxima negociação, em Copenhague, em 2009, provavelmente, será apenas perder mais uma década. Mas a empreitada do Sr. Obama, de investir US$ 150 bilhões nos próximos dez anos em tecnologias limpas, poderia fazer uma enorme diferença.

Com relação às mudanças climáticas, os especialistas do Consenso de Copenhague verificaram que a pesquisa e o desenvolvimento de tecnologias energéticas mais eficientes e com baixas emissões de carbono poderiam dar 11 vezes mais retorno que o custo, ao invés de produzir decepcionantes 90 centavos de retorno por dólar investido com a simples redução de CO₂.

Melhor ainda seria usar os US$ 150 bilhões do Sr. Obama para investir principalmente na criação de novas tecnologias, em vez de simplesmente subsidiar as já existentes.

Painéis solares na CalifórniaInvestir em tecnologias existentes ineficientes (como os painéis solares de hoje), custam muito caro para o pouco benefício que produzem. A Alemanha, o principal consumidor de painéis solares, vai acabar gastando US$ 156 bilhões até 2035, apesar de apenas atrasar o aquecimento global em uma hora até o final do século.

Se o Sr. Obama investir em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em vez de redução das emissões de carbono, os dólares poderiam render muito (pesquisadores são relativamente baratos) e o resultado – talvez em 2040 – pode ser melhores painéis solares que produzem energia mais barata que a produzida com combustíveis fósseis. O complexo estilo Quioto de negociação política se tornaria desnecessário, porque todo mundo, incluindo China e Índia, vão querer mudar. A mudança virá em grande parte porque os US$ 150 bilhões do Sr. Obama farão as tecnologias mais baratas. Seguindo a liderança do Sr. Obama, os países devem concordar em gastar 0,05% do seu PIB em P&D de energia – o aumento da P&D mundiais em dez vezes, ainda custa 10 vezes menos que Quioto. Isto poderia realmente e de forma rentável debelar o aquecimento global a médio prazo.

Aproveitar o imenso capital intelectual e científico dos Estados Unidos da América para ajudar a resolver os problemas do mundo, de uma maneira racional e moralmente defensável, é a verdadeira missão da nossa geração.

Irá exigir verdadeira liderança e a coragem para enfrentar a cara feia de uma grande parte da opinião pública – traços que o Sr. Obama já exibiu em grande medida.

A mudança é definitivamente necessária. Concentrar os investimentos na má nutrição e na redução das doenças pode fazer um imenso bem a baixo custo, marcando um mundo onde seres humanos mais fortes e saudáveis podem se encarregar da sua própria vida e lidar melhor com os muitos desafios do futuro.

O aquecimento global também necessita de uma liderança forte. Evitar décadas perdidas e recursos indevidamente utilizados em uma abordagem como a de Quioto é primordial, e um enfoque do tipo 0,05% do PIB em P&D iria corrigir o aquecimento global a longo prazo, com um custo muito menor e com muito maior probabilidade de sucesso. Isto, realmente, seria mudança de uma forma que pudéssemos acreditar.

Bjorn Lomborg é professor na Copenhagen Business School, organizador do Consenso de Copenhague e autor de “Cool It”

O post acima é uma tradução livre do artigo de Bjorn Lomborg publicado em The Wall Stree Journal online na sexta-feira, 08/11/2008. Para ver o original, clique aqui

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