Mudanças climáticas, ceticismo e dogmatismo

Kenitiro Suguio, José Bueno Conti, Ricardo Augusto Felício, Antônio Jaschke Machado e Geraldo Luís Lino *

No afã de desqualificar os críticos dos cenários alarmistas que têm sido formulados sobre as mudanças climáticas (Mudanças climáticas e os ‘céticos’, 20/08/2012), o físico José Goldemberg comete várias impropriedades inaceitáveis para alguém que pretende defender os princípios que devem nortear a atividade científica.

De início, como é comum entre os defensores do aquecimento global antropogênico (AGA), ele distorce o conceito de ceticismo, atribuindo-lhe um caráter quase pejorativo. Ora, todo cientista sério deve ser um cético (sem aspas) permanente quanto ao estado do conhecimento, uma vez que a Ciência é uma obra em construção e sempre aberta à revisão das hipóteses e teorias, em função de novos dados e observações.

Como afirma o livreto “Sobre ser um cientista”, publicado em 1995 pela Academia Nacional de Ciências dos EUA, “a falibilidade dos métodos é um valioso lembrete da importância do ceticismo na ciência… O ceticismo organizado e vigilante, bem como uma abertura às novas ideias, são essenciais para uma precaução contra a intrusão de dogmas ou tendências coletivas nos resultados científicos”.

A ciência se faz, como afirma Goldemberg, com correlações entre causas e efeitos. Porém, estas correlações necessitam de correspondências consistentes entre hipóteses e evidências físicas observadas no mundo real – e são, precisamente, estas últimas que faltam para que o AGA seja confirmado como um “fato notório”. Na verdade, a hipótese se baseia quase exclusivamente em projeções de modelos matemáticos da dinâmica climática, que constituem simplificações limitadas da mesma e não são substitutos para as evidências físicas faltantes. Portanto, não deveriam ser usados para fundamentar políticas públicas e estratégias de longo alcance, como a pretendida “descarbonização” da economia, inócua para o clima global, mas com enormes impactos socioeconômicos negativos para todo o mundo.

Segundo a hipótese do AGA, as emissões de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis, após a Revolução Industrial, estariam afetando a dinâmica climática. Para que isto se comprovasse, seria preciso que as variações de parâmetros como as temperaturas atmosféricas e os níveis do mar, observadas nos últimos dois séculos, fossem anômalas em relação às verificadas anteriormente, no passado histórico e geológico.

O relatório de 2007 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) registra que, no período de 1850 a 2000 (150 anos), a temperatura média global aumentou 0,74 °C, e que, entre 1870 e 2000 (130 anos), os níveis do mar subiram 0,2 m.

Ocorre que, ao longo do Holoceno, a época geológica correspondente aos últimos 12.000 anos, em que a Civilização tem existido, houve diversos períodos com temperaturas mais altas que as atuais. No Holoceno Médio, há 8000 – 6000 anos atrás, as temperaturas médias chegaram a ser 2 °C a 3 °C superiores às atuais, enquanto os níveis do mar atingiram até 3 metros acima do atual. Igualmente, nos períodos quentes conhecidos como Minoano (1500 – 1200 a.C.), Romano (séc. VI a.C. – V d.C.) e Medieval (séc. X – XIII d.C.), as temperaturas foram mais de 1 °C superiores às atuais.

Quanto às taxas de variação (gradientes) desses indicadores, não houve qualquer aceleração anormal delas nos últimos dois séculos. Ao contrário, nos últimos 20.000 anos, desde o início do degelo da última glaciação, houve períodos em que elas chegaram a ser uma ordem de grandeza superiores aos verificados desde o século XIX.

Entre 12.900 e 11.600 anos atrás, no período frio denominado Dryas Recente, as temperaturas caíram cerca de 8 °C em menos de 50 anos e, ao término dele, voltaram a subir na mesma proporção, em pouco mais de meio século.

Quanto ao nível do mar, ele subiu cerca de 120 metros, entre 18.000 e 6.000 anos atrás, o que equivale a uma taxa média de 1 metro por século, suficientemente rápida para impactar visualmente as gerações sucessivas das populações que habitavam as margens continentais.

No período entre 14.650 e 14.300 anos atrás, como observaram cientistas do Centro Europeu de Pesquisas e Ensino de Geociências Ambientais (CEREGE), a elevação foi ainda mais acelerada, atingindo cerca de 14 metros em apenas 350 anos – média de 4 metros por século (Nature, 28/03/2012).

Tais dados representam apenas uma pequena fração das evidências proporcionadas por, literalmente, milhares de estudos realizados em todos os continentes, por cientistas de dezenas de países, devidamente publicados na literatura científica internacional. Desafortunadamente, é raro que algum destes estudos ganhe repercussão na mídia, quase sempre mais inclinada à promoção de um alarmismo sensacionalista e desorientador.

Por conseguinte, as variações observadas no período da industrialização se enquadram, com muita folga, dentro da faixa de oscilações naturais do clima e, portanto, não podem ser atribuídas ao uso dos combustíveis fósseis ou a qualquer outro tipo de atividade vinculada ao desenvolvimento humano.

A influência humana no clima restringe-se às cidades e seus entornos, em situações específicas de calmarias, sendo estes efeitos bastante conhecidos, mas sem influência em escala planetária.

Assim, ao insistir em impor uma hipótese sem as necessárias evidências físicas, o professor Goldemberg e outros adeptos do AGA agem como os dogmáticos e fundamentalistas religiosos tão criticados por ele.

Ademais, as mudanças constituem o estado permanente do sistema climático – pelo que a expressão “mudanças climáticas” chega a ser redundante. Por isso, o alarmismo que tem caracterizado as discussões sobre o tema é extremamente prejudicial à atitude correta necessária diante dos fenômenos climáticos, que deve ser orientada pelo bom senso e pelo conceito de resiliência – a flexibilidade das condições físicas de sobrevivência e funcionamento das sociedades, além da capacidade de resposta às emergências, permitindo-lhes reduzir a sua vulnerabilidade às oscilações climáticas e outros fenômenos naturais potencialmente perigosos. Tais requisitos incluem, por exemplo, a redundância de fontes alimentícias (inclusive a disponibilidade de sementes geneticamente modificadas para todas as condições climáticas), capacidade de armazenamento de alimentos, infraestrutura de transportes, energia e comunicações e outros fatores…

O bom senso, a racionalidade e a prática científica consagrada indicam que o caminho para se aumentar a resiliência da Humanidade, diante de mudanças climáticas inevitáveis, não passa pela promoção de um alarmismo infundado e a imposição de restrições tecnológicas e econômicas desnecessárias – mas pela elevação geral dos seus níveis de desenvolvimento e progresso aos patamares permitidos pela Ciência e a Tecnologia modernas.

Enxergando melhor os dois lados, dá para ver mais distante.

* Kenitiro Suguio é geólogo e professor emérito do Instituto de Geociências da USP; José Bueno Conti é geógrafo, climatologista e professor titular do Departamento de Geografia da USP; Ricardo Augusto Felício é meteorologista, climatologista e professor do Departamento de Geografia da USP; Antônio Jaschke Machado é meteorologista, climatologista e professor do Departamento de Geografia da UNESP; Geraldo Luís Lino é geólogo e autor do livro A fraude do aquecimento global: como um fenômeno natural foi convertido numa falsa emergência mundial (Capax Dei, 2009).

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1 Response to “Mudanças climáticas, ceticismo e dogmatismo”


  1. 1 Cristiano 27/09/2012 às 12:40

    Esclarecedor. Me parece que em muitas partes do governo temos esses exemplos de pessoas no poder. O indivíduo que avalia que o problema é do CO2 e não do crescimento estúpido das cidades, sem qualquer espalhamento e equilíbrio das construções civis, é bem a cara do governo subserviente a empresas. Estudem administração e ciências sociais que fica fácil de entender.


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