Os limites do pânico

Muitas vezes ouvimos falar que o mundo, tal e como o conhecemos, um dia terminará, em geral como consequência de um colapso ecológico. De fato, mais de 40 anos depois que o Clube de Roma difundiu a mãe de todos os prognósticos apocalípticos, Os Limites do Crescimento, suas ideias básicas seguem vigentes. Mas o tempo não tem sido ameno.

Os Limites do Crescimento advertiam a humanidade em 1972 que um colapso devastador estava a ponto de ocorrer. Mas, se bem temos visto pânicos financeiros desde então, não foram registradas nem escassez nem colapsos produtivos reais. Mais bem, os recursos gerados pela engenhosidade humana seguem tirando muita vantagem do consumo humano.

No entanto, o legado fundamental do informe segue de pé: herdamos uma tendência a nos obcecarmos pelos remédios equivocados para os problemas essencialmente triviais, enquanto costumamos ignorar os grandes problemas e os remédios apropriados.

No começo dos anos 1970, a enxurrada de otimismo tecnológico se acabou, a guerra do Vietnam foi um desastre, as sociedades estavam em estado de agitação e as economias se estancavam. O livro de 1962 de Rachel Carson, Primavera Silenciosa, gerou temores sobre a contaminação e deu origem ao movimento ambientalista moderno; o título do livro de 1968 de Paul Ehrlich, A Bomba Demográfica, dizia tudo. O primeiro Dia da Terra, em 1970, foi profundamente pessimista.

A genialidade de Os Limites do Crescimento foi fundir esses temores com o medo de ficarmos sem recursos. Estávamos condenados, porque demasiadas pessoas consumiriam demais. Ainda se nossa engenhosidade nos servisse para ganhar tempo, com a contaminação terminaríamos matando o planeta e a nós mesmos. A única esperança era frear o crescimento econômico, reduzir o consumo, reciclar e obrigar as pessoas a terem menos filhos, estabilizando a sociedade em um nível significativamente mais pobre.

Hoje ainda segue ressoando esta mensagem, ainda que fosse espetacularmente errada. Por exemplo, os autores de Os Limites do Crescimento previram que antes de 2013, o mundo haveria ficado sem alumínio, cobre, ouro, chumbo, mercúrio, molibdênio, gás natural, petróleo, prata, folha de flandres, tungstênio e zinco.

Pelo contrário, e apesar dos incrementos recentes, os preços das matérias primas em termos gerais caíram a aproximadamente um terço de seu valor equivalente há 150 anos. As inovações tecnológicas substituíram o mercúrio nas baterias, nas obturações dentárias e nos termômetros: o consumo de mercúrio reduziu-se 98% e, no ano 2000, o preço havia caído 90%. Em termos mais amplos, desde 1946, a oferta de cobre, alumínio, ferro e zinco sobrepassou o consumo, devido à descoberta de reservas adicionais e novas tecnologias para extraí-los a menor custo.

Da mesma maneira, o petróleo e o gás natural iriam acabar em 1990 e 1992, respectivamente; hoje, as reservas de ambos são maiores que em 1970, ainda que se consuma muitíssimo mais. Nos últimos seis anos, só o gás de folhelho duplicou os recursos potenciais de gás natural nos Estados Unidos e reduziu o preço à metade.

No que se refere ao colapso econômico, o IPCC estima que o PIB global per capita aumente 14 vezes neste Século e 24 vezes nos países em desenvolvimento.

Os Limites do Crescimento se equivocou tanto porque seus autores passaram por cima e ignoraram o maior recurso de todos: a nossa própria iniciativa. O crescimento demográfico foi se desacelerando desde finais dos anos 1960. A oferta de alimentos não se colapsou (estamos utilizando 1.500 milhões de hectares de terras aráveis, mas há outros 2.700 milhões de hectares de reserva). A desnutrição caiu mais da metade, de 35% da população mundial a menos de 16%.

Tampouco estamos nos engasgando com contaminações. Embora o Clube de Roma imaginasse um passado idílico sem nenhuma contaminação particular do ar e agricultores felizes, e um futuro afogado por chaminés em erupção, a realidade é absolutamente oposta.

Em 1900, quando a população humana global era de 1,5 bilhões de habitantes, quase três milhões de pessoas – aproximadamente 1 de cada 500 – morria a cada ano por causa da contaminação ambiental, principalmente como consequência da péssima qualidade do ar em ambientes fechados. Hoje, o risco se reduziu a uma morte a cada 2.000 pessoas. Se bem que a contaminação segue matando a mais pessoas que a malária, a taxa de mortalidade está caindo, não subindo.

No entanto, a mentalidade alimentada por Os Limites do Crescimento segue dando forma ao pensamento popular e das elites.

Consideremos a reciclagem, que costuma ser apenas um gesto para sentir-se bem com escassos benefícios ambientais e um custo significativo. O papel, por exemplo, costuma vir de bosques sustentáveis, não de florestas tropicais. O processamento e os subsídios governamentais associados com a reciclagem geram um papel de menor qualidade para salvar um recurso que não está em perigo.

Da mesma maneira, os medos a uma população excessiva foram o marco de políticas autodestrutivas, como a política de um só filho da China e a esterilização compulsória na Índia. E, embora se tenha determinado que os pesticidas e outros agentes contaminantes possam ser a causa da morte de talvez a metade da população, os pesticidas bem regulados ocasionam ao redor de 20 mortes a cada ano nos Estados Unidos, enquanto que têm vantagens importantes na produção de alimentos mais econômicos e mais abundantes.

Por certo, a dependência exclusivamente da agricultura orgânica – um movimento inspirado pelo medo aos pesticidas – custaria mais de 100 bilhões de dólares anualmente nos Estados Unidos. Com uma eficiência inferior a 16%, a produção atual requereria outros 27 milhões de hectares de terras aráveis – uma superfície de mais da metade da Califórnia. Os preços mais elevados reduziriam o consumo de frutas e verduras, causando uma infinidade de efeitos adversos para a saúde (entre eles, dezenas de milhares de mortes adicionais por câncer a cada ano).

A obseção pelos cenários pessimistas nos distrai das verdadeiras ameaças globais. A pobreza é um dos maiores assassinos, e as enfermidades facilmente curáveis seguem cobrando 15 milhões de vidas todos os anos – 25% de todas as mortes.

A solução é o crescimento econômico. Quando saem da pobreza, a maioria das pessoas não sucumbe às enfermidades infecciosas. A China já tirou mais de 680 milhões de pessoas da pobreza nas últimas três décadas, liderando uma redução da pobreza a nível mundial de quase 1 bilhão de pessoas. Isso criou sólidas melhorias na saúde, na longevidade e na qualidade de vida.

As quatro décadas transcorridas desde Os Limites do Crescimento demonstraram que necessitamos mais, e não menos crescimento. Uma expansão do comércio, com benefícios estimados que poderiam super os 100 bilhões de dólares anuais até finais do Século, seria milhares de vezes mais benéfica que as tímidas políticas para fazer-nos sentir bem que resultam do alarmismo. Mas isso requer abandonar uma mentalidade anticrescimento e utilizar nosso enorme potencial para criar um futuro mais brilhante.

O texto acima é uma tradução livre de um artigo de Bjørn Lomborg publicado em Project Syndicate. Para ver o original, clique aqui

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