“O aquecimento global não é o vilão da crise hídrica de São Paulo”

Para o meteorologista Augusto José Pereira Filho, professor da USP, a falta de nuvens é a explicação para a seca que atinge o Sudeste. Nesta entrevista, ele afirma que o fenômeno é causado por fatores como a era geológica em que vivemos e o movimento atmosférico natural do planeta. A próxima estiagem, diz ele, já tem data para ocorrer: entre 2019 e 2024

A crise hídrica que afeta o Sudeste levou a uma busca por explicações para a ausência das chuvas. A hipótese mais forte, segundo meteorologistas e ativistas, é que o aquecimento global seja a razão por trás do calor e seca sem precedentes. O planeta estaria sofrendo as consequências das emissões de CO₂ causadas pelo homem: temperaturas extremas, desequilíbrio ambiental, falta d’água. Na última quinta-feira, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) alertou que a estiagem e a crise hídrica de vários países, provocadas pelas mudanças climáticas, pode levar a conflitos entre as nações. Para Augusto José Pereira Filho, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e um dos maiores especialistas do Brasil em recursos hídricos e previsões climáticas, a explicação é outra.

Com sua experiência de meteorologista com títulos e qualificações em instituições como a Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), Pereira Filho desmente as relações entre a estiagem que vivemos e o desmatamento da Amazônia ou o acúmulo de CO₂. Em seu gabinete da universidade, rodeado por dados de radares, satélites e dados dos milímetros de chuva que caem na região metropolitana de São Paulo, prevê com a precisão que a ciência atual é capaz de oferecer que essa crise se tornará rotina: a próxima deve atingir o Sudeste entre 2019 e 2024.

“Esse fenômeno é causado por fatores como a era geológica em que vivemos e o movimento atmosférico natural do planeta. Trata-se de um ciclo que tem ocorrido a cada cinco ou dez anos”, afirma.

Ação do homem — O cientista também questiona a certeza de que o homem está por trás do aquecimento global. Nosso impacto, diz Pereira Filho, é determinante apenas localmente. Para o planeta, somos um dos inúmeros e complexos fatores a influir em suas condições meteorológicas — e estamos longe de ser os mais fortes.

Nesta entrevista, Pereira Filho afirma que ainda existem incertezas sobre o funcionamento de mecanismos climáticos e meteorológicos básicos, como o ciclo da água ou das nuvens. Nessa área, a ciência esbarra em limitações que tornam impossível afirmar que há apenas uma causa para explicar nevascas, secas ou tempestades inesperadas. São conjuntos de fatores que, unidos, trabalham para gerar as temperaturas e eventos que conhecemos. E, às vezes, eles surpreendem.

Na última quinta-feira, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) alertou que a seca e a crise hídrica de vários países, causadas pelas mudanças climáticas, pode levar a conflitos. Há relação entre o aquecimento global e a seca que o Sudeste enfrenta? O aquecimento global não é o vilão da crise hídrica de São Paulo. Essa crise acontece porque as nuvens sumiram justamente na estação chuvosa de São Paulo. A região metropolitana é uma ilha de calor, isto é, mais quente do que o seu entorno, por causa da poluição, concreto e asfalto. Esse fenômeno favorece as chuvas e, por isso, chove muito mais na cidade que no passado. Os anos de 2010 a 2013 estão entre os dez mais chuvosos da história de São Paulo.

Como pode estar mais seco e chover mais? Não há falta de chuva? Está chovendo mais, mas nos lugares errados. Chove sobre a capital, que é uma ilha de calor, mas não está chovendo sobre o sistema Cantareira. São regiões que passam por situações meteorológicas diferentes. O ano de 2014 não é o ano mais seco da história da cidade de São Paulo, mas o 13º no ranking.

Então por que essa seca é vista como histórica? A região metropolitana está mais quente, mais seca e com poucas nuvens. Assim, quando a chuva se forma, são tempestades intensas devido ao excesso de calor e umidade trazida pela brisa do mar — que evaporam rapidamente por causa das altas temperaturas. Além disso, com o calor, as pessoas consomem mais água, agravando sua falta nos reservatórios. Em janeiro, de acordo com nossas medições, choveu acima da média na cidade de São Paulo.

Os dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que em janeiro em São Paulo houve apenas 156,2 milímetros de precipitação, abaixo da média histórica (de 1943 a 2015) de 262,4 milímetros. Por que o senhor diz que choveu mais? A estação do IAG tem dados diferentes, que mostram que choveu 261 milímetros, ou seja, 40 milímetros acima da média histórica (de 1933 a 2014) de 220 milímetros. Essa diferença nas medições acontece porque a estação do Inmet está no mirante de Santana, um lugar que se modificou muito nos últimos sessenta anos, com ocupação e construções. Já a estação do IAG está sobre um lago no Parque do Estado, na capital. Como essa é uma área protegida, ela não sofreu alterações significativas desde que foi construída e, assim, é capaz de registrar apenas as variações climáticas. Em meteorologia, sutilezas como essas são muito importantes.

Então não é possível confiar nos dados? É prudente saber de onde vêm. Estações meteorológicas, pluviômetros, radares e satélites são equipamentos sensíveis e que precisam de manutenção constante. É difícil conhecer as condições de todos os equipamentos para saber exatamente a qualidade dos dados. Pode haver interferências de todo o tipo nas informações. Se um pluviômetro está no meio da floresta e um passarinho faz seu ninho sobre ele, os dados são alterados.

Outra hipótese levantada sobre as causas da seca no Sudeste é o desmatamento na Amazônia. Há alguma relação? Não tem nada a ver uma coisa com a outra. O papel da Amazônia é transferir a umidade do Atlântico para o Sudeste e Sul. A Amazônia é uma dádiva do Oceano Atlântico. A floresta também sofreu com a falta de chuvas. A seca está relacionada, entre outros fatores, à ausência da Zona de Convergência do Atlântico Sul. Esse fenômeno, caracterizado por nuvens e massas de ar frio que atraem a umidade da Amazônia e a injeta no Sudeste, trazendo chuvas, de início se deslocou em direção à Bahia e, em seguida, deixou de acontecer.

Tornou-se um consenso entre os cientistas atribuir a responsabilidade pelas mudanças climáticas ao homem. Qual nossa parcela de culpa na estiagem de São Paulo? É mais plausível associar a estiagem a uma variação natural que a mudanças climáticas globais. Dito isto, a ilha de calor que é a região metropolitana tem origem humana. Nosso impacto é significativo nas condições climáticas de São Paulo e, como a região está delimitada, essa ação pode ser medida e calculada. E pode também ser revertida com educação ambiental e um melhor monitoramento hídrico e meteorológico. Claro que, como tudo no planeta está interligado, essas mudanças locais têm algum impacto no sistema global. Mas há muitos outros fatores mais importantes para modificar o clima mundial.

Quais seriam esses outros fatores? Os mais importantes são variações do movimento da Terra em torno do Sol, que modificam a quantidade de nuvens e gelo, a circulação na atmosfera e nos oceanos. Não sabemos ao certo nem como se dá o ciclo das águas no planeta. A compreensão de todos esses fatores ainda é uma incógnita. A meteorologia é uma ciência recente. Basta lembrar que radares e satélites são tecnologias do século XX. São necessários dados muito confiáveis para fazer afirmações como a de que o homem é responsável pelo aquecimento que vivemos – e eles ainda são limitados, incompletos e imprecisos. Além disso, todas essas condições funcionam em escalas de tempo imensas. Análises geológicas sugerem que a temperatura global, durante a maior parte da história da Terra, foi entre 8 e 15 graus Celsius maior que na atualidade. Não sabemos se o que está acontecendo não é, simplesmente, um processo natural do planeta. Por isso, qualquer afirmação de longo prazo é discutível: o sistema climático está além da compreensão atual da ciência.

Então também não é possível dizer que o CO₂ está por trás do atual aquecimento? O CO₂ não é um vilão. Esquecemos que essa molécula é o tijolo fundamental da vida, necessário para todos os seres vivos do planeta. A maior parte do CO₂ do planeta está nos oceanos, que são um depósito natural de material orgânico. Além disso, ele tem um ciclo anual, aumenta durante o inverno e diminui no verão. É como se o planeta passasse por um processo de lavagem durante os meses quentes. Estamos percebendo que ele está aumentado, mas não é o CO₂ que determina a temperatura. São as nuvens, e ainda não temos um mapa confiável sobre sua quantidade e distribuição no globo.

Há indícios de que o Hemisfério Sul está aquecido, com a camada de gelo mais fina. Isso revela o aquecimento do planeta? A quantidade de gelo do Ártico, no Norte, e da Antártica, no Sul, também varia durante as estações do ano. Diminui no verão e aumenta no inverno. O que as análises internacionais demonstram é que a Antártica está um pouco mais fria, ou seja, com mais gelo, e o Hemisfério Norte, um pouco mais quente. No entanto, essas medições estão dentro das margens de incertezas.

Se há tantas incertezas, a seca e a crise hídrica do Sudeste poderiam ter sido previstas? Nenhum meteorologista se atreve a fazer previsões para além de duas semanas. O sistema atmosférico é caótico e um dia é capaz de mudar tudo. No entanto, havia prognósticos climáticos que indicavam chuvas próximas ao normal para o início de 2014 – elas ficaram abaixo. Períodos de estiagem em São Paulo ocorreram entre 4 e 11 anos nas última seis décadas. Ou seja, depois de 2014 e 2015, a próxima poderá ocorrer entre o fim desta década e meados da próxima.

E ela será pior? Dada a crescente demanda por água e a escassez desse recurso, agravada pela degradação ambiental, a próxima estiagem poderá ser mais impactante. De acordo com as medições do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG), entre 1936 e 2005 a temperatura média da região metropolitana de São Paulo aumentou 2,1 graus Celsius. Os meses de calor, que no início do século XX iam de dezembro a fevereiro, hoje se estendem de setembro a março. Nesse mesmo período de quase setenta anos, devido à poluição, a umidade relativa do ar caiu 7%.

E o que podemos fazer, já que estamos à mercê das condições meteorológicas? O racionamento em São Paulo deveria ter começado em janeiro de 2014, para amenizar a crise que estamos vivendo. No entanto, contou-se com a chuva, que não veio. Temos recursos hídricos limitados. Fizemos um levantamento com os dados da Sabesp de 2003 a 2013 que mostram que, na última década, o consumo aumentou 15% e a produção de água, apenas 11%. Assim, se nada for feito, nos próximos 20 anos será necessária uma nova Cantareira para abastecer a região metropolitana. Ou poderíamos reduzir o consumo e aumentar a produção de água, o que seria mais barato e sustentável. Mas isso demanda um investimento pesado do governo e da sociedade em educação ambiental e na melhora do sistema de monitoramento da Sabesp, com a integração de dados de estações meteorológicas, radares e mapas hídricos. Além disso, é necessário haver uma Política Nacional de Meteorologia e Climatologia como, aliás, qualquer país desenvolvido tem. Só com a integração dos equipamentos, recursos e profissionais será possível evitar situações como essa e outras mais recorrentes, como as enchentes. A meteorologia é um serviço fundamental, com impacto imenso na vida das pessoas, na economia e no desenvolvimento das nações.

Entrevista de Rita Loiola com Augusto José Pereira Filho para a Veja, publicada em 08/02/2015.

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1 Response to ““O aquecimento global não é o vilão da crise hídrica de São Paulo””


  1. 1 Bruno de Avila 24 março 2015 às 1:23 pm

    Excelente entrevista! Estou pesquisando sobre o aquecimento global e com certeza este post foi um dos melhores! Justamente por ir na contra mão de opiniões fornadas sobre o tão falado aquecimento global! Parabéns!


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