Um alarme superaquecido sobre o clima

A Casa Branca lança uma campanha assustadora sobre o calor mortal. Mas saiba que o frio mata muito mais pessoas…

A administração Obama divulgou um novo relatório esta semana que tenta pintar um retrato austero de como as mudanças climáticas vão afetar a saúde humana. As temperaturas mais elevadas, dizem, serão mortais para “milhares a dezenas de milhares” de americanos. O relatório tem como subtítulo “uma avaliação científica”, presumivelmente para sublinhar a sua confiabilidade. Mas o relatório é como uma marreta política que destaca o mal e esconde o bem.

Também ignora evidências como o inconveniente fato de que o frio mata mais pessoas que o calor.

As mudanças climáticas são um problema genuíno que acabarão por causar um prejuízo líquido para a sociedade. Aos poucos, o aumento das temperaturas ao longo de décadas poderá aumentar o número de dias quentes e as ondas de calor. E se os seres humanos não fizerem nenhuma tentativa para se adaptar – a suposição curiosa que quase todo o relatório inexplicavelmente se baseia – o número total de mortes relacionadas com o calor vai aumentar. Mas, correspondentemente, as mudanças climáticas também reduzirão o número de dias frios e ondas de frio. E isso vai reduzir o número total de mortes relacionadas com o frio.

Considere um rigoroso estudo publicado no ano passado na revista Lancet, que analisou a mortalidade relacionada com as temperaturas em torno do globo. Os pesquisadores analisaram dados de mais de 74 milhões de mortes em 384 locais em 13 áreas: países frios como o Canadá e a Suécia, países de clima temperado, como a Espanha, a Coreia do Sul e a Austrália, e países mais tropicais e subtropicais como o Brasil e a Tailândia.

Os pesquisadores descobriram (e publicaram na Lancet) que cerca de 0,5% – meio por cento – de todas as mortes estão associadas com o calor, não só por problemas agudos como a insolação, mas também o aumento da mortalidade por eventos cardíacos e a desidratação. Porém, mais de 7% das mortes estão relacionadas com o frio – contando com a hipotermia, bem como com o aumento da pressão arterial e os riscos de ataques cardíacos, que ocorrem quando o corpo restringe o fluxo de sangue, em resposta a temperaturas frias. Nos EUA, cerca de 9.000 pessoas morrem de calor a cada ano, mas 144.000 morrem de frio.

O novo relatório do governo refere-se a este estudo, seria difícil ignorá-lo, uma vez que é o maior do mundo, mas apenas de maneira trivial, de modo a estabelecer a relação entre as temperaturas e a mortalidade. Mas nem uma vez esta “avaliação científica” reconhece que as mortes por frio superam significativamente as mortes por calor.

O relatório afirma com confiança que, quando as temperaturas subirem, “a redução no número de mortes causadas pelo frio será menor que a esperada pelo aumento no número de mortes do calor nos Estados Unidos”. Seis notas de rodapé estão associadas a essa afirmação. Mas um dos artigos citados nem sequer estima as mortes por frio; outro categoricamente não concorda com esta afirmação, projetando que as mortes por frio vão cair mais do que as mortes por calor vão subir.

Além disso, a figura que se usa em reportagens, aquelas “dezenas de milhares” de mortes adicionais, está errada. O principal modelo que o relatório da administração baseia-se para estimar a mortalidade relacionada com as temperaturas encontra, em um cenário de pior caso, 17.680 mortes a menos por frio em 2100, mas 27.312 mais mortes pelo calor – um aumento líquido de 9.632.

Além do mais, o modelo considera apenas as mortes por frio a partir de outubro a março [no hemisfério norte], focando naquelas causadas por temperaturas extremas no inverno. A maioria das mortes pelo frio realmente ocorrem com temperaturas moderadas, como o estudo publicado na Lancet mostra. Nos EUA, cerca de 12.000 pessoas morrem de frio extremo a cada ano, mas 132.000 morrem de frio moderado. Em Londres, mais de 70% de todas as mortes relacionadas com o frio ocorrem em dias com temperaturas acima de 5 graus Celsius. Embora as temperaturas extremas sejam mais mortais, eles ocorrem apenas em alguns dias ou semanas por ano, enquanto o frio moderado vem mais frequentemente.

Assim, uma das conclusões centrais no novo relatório da administração é contrariada por um grande número de estudos científicos de todo o mundo. Um estudo da União Europeia de 2009 espera que a redução no número de mortes pelo frio vai certamente superar as mortes por calor na década de 2020. Mesmo perto do final do século, em 2080, o estudo da UE prevê um crescimento na mortalidade associada ao calor de “entre 60.000 e 165.000” e uma diminuição de mortes por frio “entre 60.000 e 250.000.” Em outras palavras, os efeitos provavelmente poderão equilibrar-se mutuamente, mas o aquecimento poderia salvar até 85.000 vidas por ano.

Um trabalho acadêmico publicado há dois anos no “Environmental Health Perspectives” mostra de maneira semelhante que o aquecimento global poderia levar a uma redução líquida do número de mortes, tanto no Reino Unido como na Austrália. Na Inglaterra e no País de Gales, hoje, escrevem os autores, as estatísticas mostram que o calor mata 1.500 pessoas e o frio mata 32.000. Em 2080, eles calculam que o aumento do calor vai matar 3.500 adicional. Mas eles acham que as mortes por frio vão cair em 10.000. Na Austrália, as projeções sugerem mais de 700 mortes por calor, mas 1.600 mortes a menos por frio.

Globalmente, uma estimativa dos efeitos para a saúde das mudanças climáticas publicado em 2006 pela “Ecological Economics”, mostra mais de 400.000 mortes por problemas respiratórios (principalmente por calor) até meados do século, mas 1,8 milhões de mortes a menos por questões cardiovasculares (principalmente pela diminuição do frio).

Ao empurrar com tudo a ideia de que o aquecimento global é universalmente ruim para tudo e para todos, o relatório da administração enfraquece o caso razoável para a ação climática. Centrando-se apenas no lado ruim da razão, destrói a credibilidade acadêmica e política.

Embora haja um debate intelectual robusto sobre as mortes por calor e por frio, há uma maneira muito mais simples de avaliar se as pessoas nos EUA consideram as temperaturas mais elevadas preferíveis: considere para onde eles se movem. Os padrões de migração mostram que as pessoas estão indo para os estados mais quentes como o Texas e a Flórida, e não para os nevados estados de Minnesota e Michigan.

Essa é a jogada inteligente. Um estudo de 2009 na Revista de Economia e Estatística estima que, porque as pessoas procuram o calor, um pouco mais morrerão de calor, mas muitos menos morrerão de frio. No total, as ações desses requerentes de Sol evitam 4.600 mortes nos EUA a cada ano. Você não vai se surpreender ao saber que o estudo não foi mencionado no relatório semi-cozido do governo.

Bjørn Lomborg, diretor do Copenhagen Consensus Center, é o autor de “O Ambientalista Cético” (2001) e “Cool It” (2007).

O post acima é uma tradução livre do artigo publicado no Wall Street Journal. Para ver o original, clique aqui.

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