Não haverá mais La Niña?!

Segundo os dados do Climate Prediction Center (CPC), atualmente o Pacífico está neutro. A previsão de consenso dos pesquisadores do CPC e do International Research Institute for Climate and Society (IRI) é que a chance de um La Niña se estabelecer a partir de agosto-outubro de 2016 é pequena. A previsão de consenso IRI/CPC é que haja 55% de probabilidade que o Pacífico volte à neutralidade (Fig.1). Essa “previsão de consenso” é feita por modelos numéricos que sabidamente não representam adequadamente os processos físicos que controlam o clima global e, portanto, suas previsões são altamente limitadas, tendo enormes chances de serem erradas.

Fig. 1

Figura 1. Previsão de El Niño-Oscilação Sul (ENSO, em Inglês) para a Região 3.4 do Pacífico até abril-junho de 2017. Barras: azul (La Niña), vermelha (El Niño) e verde (Neutro). Observe que a barra verde fica acima dos 55% (eixo vertical à esquerda) a partir de setembro-novembro de 2016.

Fig. 2

Figura 2. “Pluma” das previsões do ENSO Região 3.4. São 17 modelos dinâmicos e 8 modelos estatísticos. O início é julho 2016 (OBS). Note que cada modelo dá resultados diferentes. O do SCRIPPS (linha azul claro com quadrados) prevê um La Niña semelhante ao de 1998-1999. Veja, na Fig.2, o gráfico das previsões mais recentes. Observe que, a partir da data em que as previsões foram feitas (ponto preto = OBS), cada modelo (listados na lateral direita) resulta em previsão diferente, formando o que é chamado de “espaguete”. Por exemplo, o modelo do SCRIPPS (linha azul claro com quadrados) prevê um La Niña semelhante ao de 1998-1999 mostrado na Fig.3 que usa os dados de anomalias de temperatura da Região Niño 3.4 do próprio CPC.

Fig. 3

Figura 3. Comparação anomalias de temperatura (ATSM) dos El Niños de 1997-98 com as do 2015-16 para a Região 3.4. O eixo horizontal é o número de semanas desde janeiro de cada período e, o vertical, as ATSM. Observe que as ATSM de 2015-16 praticamente se superpõem às de 1997-98.

Após junho de 1998, as ATSM persistiram negativas até janeiro de 2002 e o autor continua apostando que o La Niña vai ser semelhante ao de 1998-2001 e que pode persistir até 2019. Nos meses de setembro-outubro, as águas do Pacífico tendem a se aquecer e ter anomalias negativas menores porque o Sol está em cima dessa região. Porém, as águas sub-superficiais estão frias até cerca de 200 metros de profundidade em praticamente todo o Pacífico e a convecção (formação de nuvens e chuva) está começando a se estabelecer na Indonésia no período de outubro-novembro. Essa última situação deve provocar o abaixamento da pressão atmosférica na região da Indonésia durante esse período e acelerar os Ventos de Leste que, por sua vez, vão aumentar a ressurgência de águas frias no Pacífico Leste e Central, mantendo o La Niña após abril-maio de 2017.

Portanto, é necessário ter precaução com as afirmações que aparecem na mídia que “não haverá mais La Niña”, como foi veiculado pelo Canal Rural no dia 09/09/2016. Em adição, a afirmação que aparece nessa notícia que “[a] atmosfera não se prende a rótulos. Seja fenômeno La Niña fraco, com desvio de -0,5°C, ou neutralidade com viés negativo de -0,4°C, -0,3°C, o padrão atmosférico seguirá o mesmo definido há alguns meses”, não encontra respaldo nos dados históricos de anomalias de climáticas. O conhecimento atual sugere que exista um atraso (“lag”) de 3 a 6 meses nas respostas dos outros oceanos ao processo El Niño/La Niña, dependendo de sua localização. A atmosfera é aquecida por baixo, ar em contato com a superfície, que é dominada essencialmente por oceanos (71%) na Terra. Se as TSM mudam em resposta ao processo El Niño/La Niña, o padrão atmosférico e o clima são forçados, pelos oceanos, a mudar. O Oceano Atlântico é a grande fonte de umidade para as chuvas do Brasil e os dados de agosto mostram que ele ainda está com anomalias de TSM positivas, o que sugere que o ano hidrológico 2016-2017, particularmente em seu início, será mais chuvoso que anos anteriores, embora os totais possam, ainda, ficar 10% a 20% abaixo da média dos últimos 70 anos em algumas áreas do país. Alerta-se o leitor para tomar cuidados com as notícias baseadas em resultados de modelos de previsão, pois, sejam eles dinâmicos ou estatísticos, geralmente erram!

Luiz Carlos Baldicero Molion é PhD em Meteorologia e pesquisador aposentado do INPE/MCTI, e professor aposentado da UFAL/MEC.

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