“O mercado de carbono precisa ser detido”, afirma pesquisadora

Camila Moreno fala em “epistemicídio ecológico” como prática que deve se ampliar na COP-22

RIO – Em meio a discussões na 22ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-22), no Marrocos, que podem começar a forjar um mercado de carbono global, a pesquisadora Camila Moreno estará presente no evento com uma posição que pode ser resumida pelo título de um livro recém-lançado, do qual é coautora, “A Métrica do Carbono: Abstrações Globais e Epistemicídio Ecológico”, lançado pela Fundação Heinrich Böll Brasil. Formada em filosofia e direito, e em vias de concluir um doutorado em sociologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Camila faz parte de um grupo de pesquisadores e ativistas em todo o mundo que há mais de uma década questiona os preceitos da “Economia Verde”, incluída nela o mercado de carbono. Por e-mail, Camila conversou sobre o tema com O GLOBO.

Quais exemplos podem representar práticas “predatórias” no mercado de carbono? Há mais de uma década de crítica acumulada sobre o mercado de carbono como falsa solução para o clima. É importante frisar que o maior mercado oficial que temos no mundo, o esquema europeu de comércio de emissões (EU ETS) praticamente colapsou em termos de sua viabilidade econômica e foi uma decisão política mantê-lo funcionando. Há uma aposta – que é ideológica – de que um mercado mundial de carbono vai vingar em médio prazo e nisso apostam atores econômicos importantes. É no fundo uma aposta no capital financeiro, que já domina a economia mundial. Trata-se de “financializar” a atmosfera. Com a crise de 2008, deveríamos ter aprendido que este não é o caminho.

Qual é o caminho? Acho que o debate de fundo é que há uma racionalidade predatória: o reducionismo embutido na métrica do carbono, que é incapaz de enfrentar a crise ecológica, que é complexa e multifacetada e que é atravessada por questões qualitativas e políticas. Não é apenas “fechar a conta do carbono”. É decidir por outro modelo de sociedade, de produção e de consumo. Ao transformar tudo em carbono, estamos impondo uma forma de ver e de conhecer o mundo, que para se impor, tem que destruir formas concorrentes. Sob a alegação da ciência, o que está ocorrendo é um epistemicídio: a morte de todo conhecimento que não se reduz à contabilidade do carbono, como a dos povos indígenas, que envolve uma compreensão da natureza e da biodiversidade como uma grande complexidade.

Que práticas da chamada “Economia Verde” passam por cima de um modelo socioambiental diferente? Há vários problemas ambientais que se legitimam como soluções: a começar pela promoção da energia nuclear como “carbono neutra”, a expansão de monoculturas tanto do eucalipto, como da palma azeiteira (dendê), e até soja e de outros transgênicos — pois o plantio direto e sementes com esta tecnologia são vendidos agora como “agricultura climaticamente inteligente”, ou “de baixo carbono”. E o “alto agrotóxico”? No Brasil se chegou ao cúmulo de dizer que a cana de açúcar, outra monocultura com seus vários impactos ambientais e sociais, teria “emissões negativas”, já que ao crescer sequestra carbono e, transformada em etanol combustível, permite que eu “evite” (e logo, reduza) emissões que seriam dos combustíveis fósseis! Seriamente, é muito grave naturalizar este tipo de raciocínio pervertido.

Um mercado de carbono pode intensificar desigualdades entre países? Na prática, há uma transferência de responsabilidade, um “trocar seis por meia dúzia”. Um projeto em um país em desenvolvimento vai ser contabilizado para neutralizar uma emissão de gás carbônico nos países do Norte. É uma lógica perversa do quem pode pagar, pode também poluir. Nos países do Sul, os projetos que vão gerar “créditos de carbono”, via de regra, ou vão precisar de terra e água (como o eucalipto), que os países do Norte não tem, ou vão ser cavalos de Tróia para vender tecnologia e propriedade intelectual destes mesmos países. E o pior é que para isso, os países do Sul vão acabar é aumentando suas dívidas externas, tomando dinheiro emprestado para o “financiamento climático” do Banco Mundial e outros fundos, por exemplo, além das parcerias público privadas (PPPs).

Por outro lado, você acha que se o mercado de carbono se direcionar a apenas alguns segmentos, como os das energias fósseis, isto poderia ser uma solução para frear práticas que podem ser destrutivas a comunidades e ecossistemas? Vou ser muito franca. Precisamos ir saindo da civilização petroleira, isso requer discutir desde os dogmas do crescimento econômico até as alternativas ao papel que o plástico, feito também de petróleo, tem em todos os âmbitos da nossa vida material. Não é o mercado de carbono que vai resolver isso. Precisamos povoar nossos imaginários sobre o futuros com outras formas de viver, isso significa questionar e repensar praticamente tudo. Não tem como delegar isso para os mesmos atores de sempre, que oferecem o mesmo produto embrulhado em embalagem verde.

O mercado de carbono é, então, definitivamente um projeto falido? O mercado de carbono é algo muito grave que está sendo construído e precisa ser detido. Não é uma questão menor. Sob o manto de um discurso que se limita aos projetos, ao custo-benefício das emissões, oculta-se uma transformação profunda, uma encruzilhada civilizatória que pode não ficar muito clara. Em algum momento da história a terra foi transformada em propriedade privada. Este processo foi longo e violento, e hoje ninguém mais questiona isso, parece ser natural. Embora todos os seres humanos nasçam no planeta Terra, só alguns são donos da terra. Todos os outros são sem-terra, sem-teto, apesar da questão da moradia ser um direito humano básico. Mais recentemente, aceitamos que a água, essencial para qualquer forma de vida, fosse transformada em mercadoria. Vamos deixar que o ar também se transforme em mercadoria?

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