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Fábulas de estufa

A decisão de Donald Trump pela saída dos Estados Unidos do Tratado de Paris tem sido usada pela grande imprensa para gerar uma nova onda de difamação do presidente americano. A abordagem de diversos jornalistas e colunistas tem sido no nível “novela mexicana”. John Sutter, escrevendo para a CNN, afirmou que essa decisão trará resultados apocalípticos para o planeta; Helio Gurovitz, escrevendo para o portal G1, disse que há consenso entre os cientistas de que as consequências serão catastróficas; Michael Shear, escrevendo para o New York Times, falou que a saída dos EUA desencadeará uma série de efeitos profundos sobre o planeta.

Mas, afinal, o aquecimento global é real como dizem esses jornalistas? Existe realmente um consenso na comunidade científica de que a ação do homem é capaz de modificar o clima do planeta? Muitos ficarão surpresos em saber que as respostas a essas perguntas são um simples e curto “não”.

A imprensa de esquerda vive afirmando que a maioria dos cientistas acredita no conceito de que as ações do homem podem causar mudanças climáticas na Terra. E não é uma maioria qualquer, dizem os jornalistas que divulgam essa mentira: falam em 97% da comunidade científica. Mas, de acordo com pesquisa realizada pela Agência Holandesa de Avaliação Ambiental (PBL), apenas 43% dos cientistas apoiam as alegações de mudanças climáticas causadas pelo homem. Ou seja, a minoria.

Por que a maioria da comunidade científica duvidaria de uma causa tão importante como essa? Os mesmos jornalistas de esquerda dirão que as grandes e malvadas corporações estão por trás disso, comprando todo mundo para garantir seu direito de destruir o mundo. A verdade é totalmente distinta: os dados simplesmente não dão suporte às teorias de aquecimento global causado pelo homem. Tudo o que se publicou de mais relevante para comprovar essas teorias foi feito de forma contrária à definição de boa ciência. Pesquisas sérias partem de uma hipótese e então coletam dados para comprová-la ou não. Os que alardeiam o apocalipse climático manipulam os dados reais o quanto for preciso para comprovar uma hipótese falida.

A Agência Aeroespacial Americana, mundialmente conhecida como Nasa, é um dos órgãos que mais contribuem para a coleta de dados climáticos no mundo. James Hansen, ex-climatologista da Nasa, é considerado o pai da teoria de mudanças climáticas causadas pelo homem, e o seu “Modelo Zero” introduziu o conceito de aquecimento global na comunidade científica. Em 2009 foram divulgados e-mails trocados entre Hansen e seus colegas de pesquisa, Phil Jones e Michael Mann, onde eles discutiam maneiras de diminuir as temperaturas passadas e “ajustar” as temperaturas recentes para dar a impressão de um aquecimento acelerado. Em 2011 vieram à tona mais e-mails dessa turma. Phil Jones, que trabalhava à época no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), escreveu num e-mail: “Me disseram que o IPCC está acima das leis de divulgação de informações. Uma maneira de garantir você e todos os que estão trabalhando conosco é apagando todos os e-mails no fim do processo”. Em outra mensagem, ele diz: “Todo trabalho que fizemos no passado foi garantido por verbas de pesquisa que conseguimos – e tem de ser muito bem escondido”. Quando um “cientista” defende a ocultação de dados, coisa boa não pode ser.

Ainda sobre a Nasa, em 2015 o jornal The Washington Times noticiou que o pesquisador Paul Homewood descobriu um “ajuste” feito pela agência nas leituras de nove estações climáticas sob sua supervisão, de modo a transformar uma tendência de resfriamento em uma tendência de aquecimento. De acordo com ele, os dados de 1920 a 1950 foram ajustados para baixo para que os dados de 1980 a 2000 criassem uma impressão de aquecimento generalizado. A Nasa também divulgou que 2014 havia sido o ano mais quente já registrado, mas omitiu o fato de que essa alegação tinha apenas 38% de confiabilidade.

Não bastasse toda essa manipulação, pesquisas recentes mostram que a temperatura global tem se mantido estável desde 1997 e que a quantidade de gelo nas calotas polares tem aumentado. Na verdade, a quantidade de gelo na Antártida atingiu um recorde de 20 milhões de quilômetros quadrados em 19 de setembro de 2014, superando a medida anterior de 1979. Ou seja, as previsões apocalípticas de cidades inteiras desaparecendo por conta do aumento do nível dos oceanos são tão realistas quanto as estórias do Batman ou do Hulk.

Nós somos pequenos, muito pequenos. Se colocássemos todas as mais de 7 bilhões de pessoas do mundo em pé, uma do lado da outra, caberiam todas em um décimo da área de Sergipe, o menor estado do Brasil. Nosso planeta é 1,3 milhão de vezes menor que o Sol, e qualquer vento ou explosão solar é capaz de influenciar o nosso clima muito mais diretamente que os gases que jogamos na atmosfera. Os defensores da teoria das mudanças climáticas por ação humana querem atribuir ao homem muito mais poder e importância do que realmente temos. Esse erro tem sido cometido repetidamente desde que os primeiros iluministas decretaram que a razão humana poderia reformar a sociedade e criar um paraíso terrestre. Foi essa arrogância, e não as nossas fábricas e automóveis, que realmente estragou o mundo.

O texto acima (com algumas edições) é de Flavio Quintela e foi publicado ontem na Gazeta do Povo. Para ver o original, clique aqui

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Chuvas em Mocoa, na Colômbia

Choveu cerca de 130 milímetros em uma noite em Mocoa, no departamento de Putumayo, no sudoeste da Colômbia. Muita chuva?

A seguir, textos revisados de posts [1] [2] nesse blog para ajudá-lo a responder essa pergunta.

Cherrapunjee, na Índia, é um dos lugares aonde mais chove do mundo. Lá chove em média 11.777 mm por ano. Esse local coleciona dois recordes mundiais. Choveu por lá 26.461 mm em 12 meses, entre 1º de agosto de 1860 e 31 de julho de 1861, quase 125% acima da média. E em Julho de 1861, observou-se por lá a maior precipitação em um mês, 9.300 mm, quase 80% da média anual em um único mês, o equivalente a 300 mm por dia em média, todos os dias do mês.

Entre 15 e 16 de março de 1952, em Cilaos, no centro da ilha de La Réunion, choveu 1.870 mm em 24 horas, o que equivale a quase 78 mm por hora, em média. Esse é o recorde mundial de maior precipitação já observada em 24 horas, em terra. La Réunion é uma ilha no Oceano Índico, a leste de Madagascar, na latitude 21° Sul. La Réunion anotou também outros dois recordes: entre 24 e 26 de fevereiro de 2007, choveu 3.929 mm em 72 horas (3 dias) e entre 24 e 27 de fevereiro de 2007, 4.869 mm em 96 horas (4 dias), durante a passagem do ciclone tropical Gamede, próximo à cratera Commerson.

A maior quantidade média anual de chuva observada é de 11.872 mm, em Mawsynram, na Índia, e a menor quantidade de chuva observada no período de um ano inteiro é 0,0 mm, no deserto de Atacama, na região de Antofagasta, no Chile.

A precipitação pluvial média anual no Estado de São Paulo é de cerca de 1.490 mm. A mínima foi de 1.078 mm, mas a máxima foi de 4.378 mm.

A precipitação pluvial média anual na cidade de São Paulo, no período de 1940 a 1999, foi de 1.591 mm. A década de 1940 foi a mais chuvosa na cidade.

A precipitação pluvial média anual no Mirante de Santana, onde o Instituto Nacional de Meteorologia (INMet) faz as medições oficiais da cidade de São Paulo desde 1943, é de 1.441 mm, concentrada principalmente no verão. O maior acumulado de precipitação registrado pelo INMet em 24 horas foi de 151,8 mm no dia 21 de dezembro de 1988. Outros grandes acumulados em 24 horas foram 140,4 mm em 25 de maio de 2005, 127,4 mm em 12 de janeiro de 1949, 114,3 mm em 15 de dezembro de 2012, 109,5 mm em 28 de fevereiro de 2011, 106,4 mm em 16 de janeiro de 1991, 106,2 mm em 11 de março de 1994, 103,5 mm em 19 de janeiro de 1977, 103,3 mm em 8 de fevereiro de 2007 e 102,7 mm em 17 de fevereiro de 1988. O mês de maior precipitação foi março de 2006, com 607,9 mm registrados.

O que se verifica, portanto, é que há uma enorme variabilidade natural.

Quando a mocinha da previsão do tempo nos telejornais insiste em dizer que “choveu o equivalente a tantos dias”, apenas confunde ainda mais os telespectadores. No caso das chuvas, o que importa é a variabilidade natural, o que de fato já ocorreu e que eventualmente pode ou deve ocorrer novamente.

Quando eu estudava na Faculdade de Ciências Agronômicas, há mais de 30 anos, aprendi no curso de Construções Rurais que se deve considerar, por via das dúvidas e por segurança, uma lâmina de 100 mm por hora nos cálculos de telhados, calhas e drenagens. Creio que isso não deve ter mudado muito, desde então…

Se considerarmos, por exemplo, os 607,9 mm de março de 2006, na cidade de São Paulo, e dividirmos pelos 31 dias do mês, teremos cerca de 20 mm por dia. Mas choveu 151,8 mm em um único dia. E se tomarmos como base a média anual de 1.441 mm da cidade, teremos apenas cerca de 4 mm por dia. E o que isso significa?!

Não é raro chover cerca de 100 mm em um único dia. Mas, para cálculos de drenagem, para evitarmos enchentes, devemos considerar os 100 mm por hora. Se os cálculos não levam em consideração isso, o resultado, infelizmente, é o que se vê, ano após ano, durante os verões.

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Novo Plano de Energia dos EUA

A energia é uma parte essencial da vida americana e um elemento básico da economia mundial. A administração Trump está comprometida com políticas energéticas que reduzem os custos para os trabalhadores americanos e maximizam o uso de recursos americanos, libertando-nos da dependência do petróleo estrangeiro.

Durante muito tempo, fomos impedidos por regulamentos onerosos em nossa indústria de energia. O presidente Trump está empenhado em eliminar políticas prejudiciais e desnecessárias, como o Plano de Ação para o Clima e as regras das Águas dos EUA. Levantar essas restrições ajudará muito os trabalhadores americanos, aumentando os salários em mais de US$ 30 bilhões nos próximos 7 anos.

Uma política de energia sólida começa com o reconhecimento de que temos vastas reservas energéticas domésticas inexploradas aqui mesmo na América. A administração Trump vai abraçar a revolução do petróleo e gás de folhelho para trazer empregos e prosperidade para milhões de americanos. Devemos aproveitar os estimados US$ 50 trilhões em reservas de folhelho, petróleo e gás natural inexploradas, especialmente aquelas em terras federais que o povo americano possui. Vamos usar as receitas da produção de energia para reconstruir nossas estradas, escolas, pontes e infra-estrutura pública. Menos energia cara será um grande impulso para a agricultura americana, também.

A administração Trump também está comprometida com a tecnologia limpa do carvão e com a revitalização da indústria do carvão da América, que tem sofrido por muito tempo.

Além de ser bom para a nossa economia, o aumento da produção de energia doméstica está no interesse da segurança nacional dos EUA. O presidente Trump está empenhado em alcançar a independência energética do cartel da OPEP e de quaisquer nações hostis aos nossos interesses. Ao mesmo tempo, vamos trabalhar com os nossos aliados do Golfo para desenvolver uma relação de energia positiva como parte de nossa estratégia anti-terrorismo.

Por fim, a nossa necessidade de energia deve ir de mãos dadas com uma gestão responsável do meio ambiente. Proteger o ar limpo e a água limpa, conservar os nossos habitats naturais e preservar as nossas reservas naturais e recursos continuarão a ser uma prioridade. O presidente Trump irá reorientar a Agência de Proteção Ambiental [EPA] sobre a sua missão essencial de proteger o nosso ar e água.

Um futuro mais brilhante depende de políticas energéticas que estimulem a nossa economia, assegurem a nossa segurança e protejam a nossa saúde. Sob as políticas energéticas da administração Trump, esse futuro pode se tornar uma realidade.

O texto acima é uma tradução livre do site oficial da Casa Branca sobre o assunto.

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O CO₂ não é um poluente!

Nos últimos dias, notícias alarmantes sobre uma onda de poluição atmosférica que assola a China me fizeram lembrar do Grande Nevoeiro de 1952 em Londres. Eu não estava em Londres à época. Na verdade, eu nem tinha nascido…

Certamente alguém vai escrever que “nunca antes na história” vimos tal coisa, ao referir-se ao fenômeno recente. Aos que gostam de séries, recomendo especialmente o quarto episódio de “The Crown” no Netflix.

O que uma coisa tem a ver com outra? Bem, falando sobre a poluição atmosférica, tudo! Londres em 1952 literalmente “mandava brasa” nas centrais termelétricas a carvão, o mesmo que a China vinha fazendo, faz e ainda deve fazer por um bom tempo.

Afinal, o carvão segue sendo o combustível mais abundante e barato disponível.

O problema não é o uso de um combustível fóssil como o carvão, mas a negligência de não se instalar os filtros capazes para reter o material particulado produzido nas caldeiras das termelétricas. A tecnologia para isso está disponível, e a custos bastante razoáveis. Os alemães que o digam, pois são os que mais queimam carvão na Europa para gerar eletricidade.

O que se vê na China – que faz com que os chineses praticamente não vejam nada – é o material particulado em suspensão, lançado à atmosfera pelas chaminés das termelétricas, algo que muito provavelmente não se verá na Alemanha.

O CO₂ (dióxido de carbono), principal produto da combustão do carvão e dos combustíveis em geral, é um gás incolor, inodoro, insípido e inofensivo, não é um poluente! O Sol, a água e o CO₂ são essenciais para a fotossíntese e para a vida – tal e como a conhecemos – no planeta Terra. O CO₂ é o gás da vida na Terra.

Não se deixe enganar! Poluentes são o SO₂ (dióxido de enxofre), os óxidos de nitrogênio, o monóxido de carbono, a fuligem e principalmente o material particulado em suspensão, subprodutos de uma combustão não otimizada. Se somarmos a isso a falta de filtros, o que sai pela chaminé da caldeira de uma termelétrica e se vê, sente-se o cheiro e o gosto pode ser bastante prejudicial à saúde e ao meio ambiente, como se viu em Londres em 1952 e se vê agora, na China…

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Neve no Saara, após 37 anos

Para se contrapor à ladainha dos que insistem em divulgar que 2016 pode ser o ano mais quente dos tempos modernos, nevou no deserto do Saara na tarde dessa segunda-feira (19/12), segundo o “Daily Mail”. O fotógrafo amador Karim Bouchetata registrou o fenômeno na região de Ain Sefra, na Argélia, situada a mil metros acima do nível do mar. A neve caiu por cerca de meia hora. Em fevereiro de 1979, observou-se fenômeno similar na mesma região. Karim postou um vídeo no Facebook, assista:

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COP 22 adia discussão sobre detalhes do Acordo de Paris

A conferência que chega ao último dia em Marrakech, no Marrocos, deveria anunciar avanços na regulamentação do Acordo de Paris, que busca limitar o aquecimento global a 2 ºC até o final do século.

O processo de assinatura e ratificação foi tão rápido que a maior parte dos países não teve tempo hábil para pensar nos detalhes da regulamentação, que envolve a redução de emissão de gases do efeito estufa nos próximos 30 anos e transferência de tecnologia e recursos para ajudar os países a se adaptarem a uma economia de baixo carbono.

Será publicado um documento simples das próximas etapas do processo. A conclusão do livro de regras de implantação do Acordo de Paris será discutida nos próximos dois anos e só deve ser concluída em 2018.

Temas como a inclusão da agricultura em projetos ligados a mudanças climáticas sequer foram tratados, e postergados para a reunião do ano que vem, que acontece em Bonn, na Alemanha.

Adriana Moisés, da Rádio França Internacional, para a CBN

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“O mercado de carbono precisa ser detido”, afirma pesquisadora

Camila Moreno fala em “epistemicídio ecológico” como prática que deve se ampliar na COP-22

RIO – Em meio a discussões na 22ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-22), no Marrocos, que podem começar a forjar um mercado de carbono global, a pesquisadora Camila Moreno estará presente no evento com uma posição que pode ser resumida pelo título de um livro recém-lançado, do qual é coautora, “A Métrica do Carbono: Abstrações Globais e Epistemicídio Ecológico”, lançado pela Fundação Heinrich Böll Brasil. Formada em filosofia e direito, e em vias de concluir um doutorado em sociologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Camila faz parte de um grupo de pesquisadores e ativistas em todo o mundo que há mais de uma década questiona os preceitos da “Economia Verde”, incluída nela o mercado de carbono. Por e-mail, Camila conversou sobre o tema com O GLOBO.

Quais exemplos podem representar práticas “predatórias” no mercado de carbono? Há mais de uma década de crítica acumulada sobre o mercado de carbono como falsa solução para o clima. É importante frisar que o maior mercado oficial que temos no mundo, o esquema europeu de comércio de emissões (EU ETS) praticamente colapsou em termos de sua viabilidade econômica e foi uma decisão política mantê-lo funcionando. Há uma aposta – que é ideológica – de que um mercado mundial de carbono vai vingar em médio prazo e nisso apostam atores econômicos importantes. É no fundo uma aposta no capital financeiro, que já domina a economia mundial. Trata-se de “financializar” a atmosfera. Com a crise de 2008, deveríamos ter aprendido que este não é o caminho.

Qual é o caminho? Acho que o debate de fundo é que há uma racionalidade predatória: o reducionismo embutido na métrica do carbono, que é incapaz de enfrentar a crise ecológica, que é complexa e multifacetada e que é atravessada por questões qualitativas e políticas. Não é apenas “fechar a conta do carbono”. É decidir por outro modelo de sociedade, de produção e de consumo. Ao transformar tudo em carbono, estamos impondo uma forma de ver e de conhecer o mundo, que para se impor, tem que destruir formas concorrentes. Sob a alegação da ciência, o que está ocorrendo é um epistemicídio: a morte de todo conhecimento que não se reduz à contabilidade do carbono, como a dos povos indígenas, que envolve uma compreensão da natureza e da biodiversidade como uma grande complexidade.

Que práticas da chamada “Economia Verde” passam por cima de um modelo socioambiental diferente? Há vários problemas ambientais que se legitimam como soluções: a começar pela promoção da energia nuclear como “carbono neutra”, a expansão de monoculturas tanto do eucalipto, como da palma azeiteira (dendê), e até soja e de outros transgênicos — pois o plantio direto e sementes com esta tecnologia são vendidos agora como “agricultura climaticamente inteligente”, ou “de baixo carbono”. E o “alto agrotóxico”? No Brasil se chegou ao cúmulo de dizer que a cana de açúcar, outra monocultura com seus vários impactos ambientais e sociais, teria “emissões negativas”, já que ao crescer sequestra carbono e, transformada em etanol combustível, permite que eu “evite” (e logo, reduza) emissões que seriam dos combustíveis fósseis! Seriamente, é muito grave naturalizar este tipo de raciocínio pervertido.

Um mercado de carbono pode intensificar desigualdades entre países? Na prática, há uma transferência de responsabilidade, um “trocar seis por meia dúzia”. Um projeto em um país em desenvolvimento vai ser contabilizado para neutralizar uma emissão de gás carbônico nos países do Norte. É uma lógica perversa do quem pode pagar, pode também poluir. Nos países do Sul, os projetos que vão gerar “créditos de carbono”, via de regra, ou vão precisar de terra e água (como o eucalipto), que os países do Norte não tem, ou vão ser cavalos de Tróia para vender tecnologia e propriedade intelectual destes mesmos países. E o pior é que para isso, os países do Sul vão acabar é aumentando suas dívidas externas, tomando dinheiro emprestado para o “financiamento climático” do Banco Mundial e outros fundos, por exemplo, além das parcerias público privadas (PPPs).

Por outro lado, você acha que se o mercado de carbono se direcionar a apenas alguns segmentos, como os das energias fósseis, isto poderia ser uma solução para frear práticas que podem ser destrutivas a comunidades e ecossistemas? Vou ser muito franca. Precisamos ir saindo da civilização petroleira, isso requer discutir desde os dogmas do crescimento econômico até as alternativas ao papel que o plástico, feito também de petróleo, tem em todos os âmbitos da nossa vida material. Não é o mercado de carbono que vai resolver isso. Precisamos povoar nossos imaginários sobre o futuros com outras formas de viver, isso significa questionar e repensar praticamente tudo. Não tem como delegar isso para os mesmos atores de sempre, que oferecem o mesmo produto embrulhado em embalagem verde.

O mercado de carbono é, então, definitivamente um projeto falido? O mercado de carbono é algo muito grave que está sendo construído e precisa ser detido. Não é uma questão menor. Sob o manto de um discurso que se limita aos projetos, ao custo-benefício das emissões, oculta-se uma transformação profunda, uma encruzilhada civilizatória que pode não ficar muito clara. Em algum momento da história a terra foi transformada em propriedade privada. Este processo foi longo e violento, e hoje ninguém mais questiona isso, parece ser natural. Embora todos os seres humanos nasçam no planeta Terra, só alguns são donos da terra. Todos os outros são sem-terra, sem-teto, apesar da questão da moradia ser um direito humano básico. Mais recentemente, aceitamos que a água, essencial para qualquer forma de vida, fosse transformada em mercadoria. Vamos deixar que o ar também se transforme em mercadoria?

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