Como diminuir a pegada humana: e como voltar à natureza seria um desastre para a natureza

Matt Ridley

Bizarramente, a maioria das políticas instadas pelo movimento ambientalista aumentaria a extensão de terra que cada pessoa precisa para sustentar seu estilo de vida.

Para sustentar nosso estilo de vida atual, nós seres humanos necessitamos de 1,4 planetas. Esse é o número calculado por uma misteriosa organização chamada Global Footprint Network, que define a pegada ecológica como “uma medida da quantidade de terra biologicamente produtiva e água que um indivíduo, uma população ou atividade requer para produzir todos os recursos que consomem e para absorver o lixo que produzem utilizando a tecnologia predominante e práticas de gestão de recursos”. Em resumo, estamos consumindo a comida, os combustíveis e as fibras da terra a uma velocidade 1,4 vezes mais rápida do que eles podem ser repostos.

Na verdade, este número é enganador, quase ao ponto da desonestidade. Mais da metade dele consiste da terra que cada pessoa necessitaria para plantar árvores com as quais absorveria suas próprias emissões de carbono. Se for levada em consideração a visão de que podemos cortar as emissões, ou encontrar maneiras melhores de isolá-las, ou até mesmo lidar com pelo menos algum aumento, então a pegada diminui e estamos vivendo folgadamente dentro das condições do nosso meio ecológico.

Mesmo se esse número da pegada estiver certo, a questão interessante é se ele está ficando maior ou menor. Argumentarei que a pegada ecológica da atividade humana provavelmente está diminuindo em um ritmo acelerado e que estamos nos tornando mais sustentáveis, não menos, na maneira de usarmos o planeta. Em resumo, o mais sustentável que podemos fazer, e o melhor para o planeta, é acelerar as mudanças tecnológicas e o crescimento econômico.

Espero que tenha conseguido a sua atenção. Não acredita em mim? Então me deixe começar com o meu próprio estilo de vida. Estou sentado em uma casa com aquecimento central, vestindo um casaco de tecido sintético, meias de lã, sapatos de couro e calças e camisa de algodão. Acabei de comer uma tigela de cereais com leite e tomei um copo de suco de manga e maracujá importados.

Você concordará que, em termos ecológicos, esta vida é a mais infame que se possa imaginar. Poços de gás e petróleo, campos de algodão e de aveia, pastos para o gado e as ovelha, pomares de maracujá e de manga no mundo todo estão desviando a sua produção para mim. Acres e mais acres apenas para sustentar o meu estilo de vida.

Sim, mas suponha que eu desista de tudo isso e decida me tornar um caçador, vestido de pele de animais, possuindo pouco mais do que lenha, ferramentas de pedra feitas em casa, cestos de vime e contas de conchas. Caço veados enquanto minha esposa cava a terra à procura de raízes. De quanta terra eu precisaria? A resposta surpreendente é que eu precisaria de cerca de 1.000 hectares, exceto se eu vivesse em uma planície tropical bem irrigada à beira de um fecundo rio, mas se eu morasse – como, de fato, moro – onde uma vez foi uma fria floresta boreal de carvalhos. Essa é a extensão de terra que o estilo de vida do caçador requer. Se 6,8 bilhões de nós tentassem viver como caçadores, precisaríamos de 18 planetas (54 se não pudéssemos explorar o oceano). Voltar à natureza seria um desastre para a natureza.

Em poucas palavras, a coisa mais sustentável que podemos fazer, e o melhor para o planeta, é acelerar as mudanças tecnológicas e o crescimento econômico.

É claro, caçadores-coletores caminham pela terra com passos mais leves do que eu. Mas mesmo os amplamente dispersos caçadores de 50.000 anos atrás causaram muitos danos ecológicos. Os registros ecológicos de Israel, da Turquia e da Itália revelam que os primeiros seres humanos modernos em torno do Mediterrâneo deixaram de se alimentar de cavalos, rinocerontes, mamutes, bisões e tartarugas e passaram a comer coelhos, lebres, pombos e pequenas gazelas. Razão: eles haviam destruído as espécies de reprodução lenta. Caçadores-coletores causaram espasmos de extinção quando chegaram à Austrália, América do Norte, Madagascar e Nova Zelândia.

A característica mais notável da agricultura, quando esta foi inventada há 10.000 anos atrás, era o quanto a sua pegada era menor. Os primeiros agricultores precisavam de cerca de dez hectares cada para sustentar o seu estilo de vida – um centésimo do que o caçador-coletor precisava. Da mesma maneira, a introdução dos combustíveis fósseis, há 200 anos, diminuiu ainda mais a pegada e interrompeu o desflorestamento: nos anos 1700, a indústria de ferro britânica perecia pela falta de combustível (madeira) em uma ilha já muito desflorestada. Um século depois, a Grã-Bretanha estava queimando carvão equivalente à produção de uma floresta do tamanho da Escócia e as árvores estavam se propagando novamente.

Na verdade, de volta ao meu estilo de vida, cada item que eu uso hoje necessita de menos terra para ser produzido do que precisava no passado. Meu casaco sintético veio de um poço de petróleo, enquanto o suéter que eu costumava usar em dias frios como este veio de uma fazenda de ovelhas. A pegada do sistema de produção do tecido sintético – poço, refinaria, fábrica e loja – é minúscula se comparada com a terra necessária para a criação de ovelhas. Minhas meias, sapatos, camisa e o café da manhã precisam de cerca de metade da extensão de terra necessária para serem produzidos do que precisavam antes do surgimento dos fertilizantes sintéticos. Meu aquecimento central a gás precisa de muito menos do que uma fogueira.

Vamos dar uma olhada nos alimentos de maneira um pouco mais detalhada. Quando os campos eram cultivados com bois ou cavalos, que também precisavam de pasto, 25% a mais precisava ser reservado apenas para alimentá-los, de acordo com o especialista em energia canadense Vaclac Smil. A introdução do trator reduziu a pegada humana. Nos últimos 50 anos, graças às inovações da genética, os defensivos e os fertilizantes, a quantidade de cereais cultivados no mundo quase triplicou, mesmo que a extensão dos campos de cereais tenha permanecido praticamente a mesma – pouco menos de 700 mil hectares.

Se tentássemos alimentar a população atual de 6,8 bilhões de pessoas usando os métodos de 1960, teríamos que cultivar 82% da área de terra do planeta ao invés de 34%, calcula o economista Indur Goklany. Isso significaria lavrar uma área extra do tamanho da América do Sul sem o Chile.

A maior inovação de diminuição de terra de todas é a capacidade de extrair nitrogênio do ar através do processo de Haber. A agricultura orgânica tira o seu nitrogênio do ar também, mas através de plantas como o trevo e utilizando o gado no processo – e isso requer terra. Alimentar o mundo com agricultura orgânica exigiria uma população de mais sete bilhões de cabeças de gado pastando em 30 bilhões de acres a mais, apenas para suprir o adubo.

Mas deixemos de lado a comida. O mesmo ocorre com as fibras. Algodão, lã, seda e linho ainda exigem terra, mas suas produções dobraram desde a introdução dos fertilizantes sintéticos. Em muitos casos, eles deram lugar às fibras “fabricadas pelo homem”, provenientes de fontes mais eficientes. A extensão de terra necessária para vestir um homem ou uma mulher diminui continuamente.

Voltar à natureza seria um desastre para a natureza.

Similarmente, os combustíveis. Uma fogueira precisa de até dez acres de área florestal intensamente ceifada apenas para aquecer uma casa; mais se você cozinhar o ano todo. Um típico poço de gás de folhelho na Pensilvânia ocupa metade de um acre e produz 50.000 metros cúbicos por dia, o suficiente para aquecer 150 casas. Isso significa que a terra necessária para produzir o seu combustível pode ser 1/3000 do que seria se você dependesse da madeira. Por isso, uma das melhores maneiras de aliviar a pressão sobre as florestas na Ásia e na África é proporcionar combustíveis fósseis às pessoas – por exemplo, na forma de eletricidade.

O transporte também requer menos terra do que antigamente. Enquanto um cavalo precisa de mais de um acre de pasto e pode transportar uma pessoa 30 milhas por dia, um poço de petróleo na Califórnia produz, todos os dias, em menos de meio acre de extensão, gasolina suficiente para transportar 200 pessoas por 30 milhas. Mesmo se levarmos em conta estradas, pistas, refinarias e fábricas de automóveis, a diferença em passageiros-milhas por acre é esmagadora. Cada melhoramento na eficiência dos combustíveis é uma redução da extensão necessária para produzí-lo.

Moradia também requer menos terra do que antigamente: concreto e aço vêm de pedreiras e fábricas com pegadas minúsculas comparadas com as concessões madeireiras. Inclua o efeito da urbanização, com as pessoas deslocando-se para as cidades em um ritmo acelerado ao redor do mundo, e a extensão de terra necessária para abrigar cada pessoa está diminuindo.

Até para pequenos luxos como a luz artificial observa-se um declínio da necessidade de terra. Para manter sua casa iluminada com velas de sebo, cera de abelha ou óleo de espermacete das baleias, ou com as antigas lamparinas babilônicas queimando óleo de sésamo, requerer-se-iam muitos acres de pasto, flores ou solo oceânico. Agora só é necessário um buraco no chão: uma mina de carvão na superfície produz quase tanta eletricidade por acre quanto um campo de milho produziria em 2000 anos.

Então, meu ponto é simplesmente esse: a necessidade de terra do homem – medida em acres para produzir alimento, acres para produzir fibras, combustível, abrigo, iluminação – estão todas diminuindo cada vez mais, e vem diminuindo por um longo período de tempo. Como, então, é possível argumentar que estamos cada vez mais, e mais, insustentavelmente em dívida com o banco ecológico do planeta?

Para esta pergunta, você ouvirá três respostas comuns. Primeira: população. O explosivo aumento populacional em oito vezes nos últimos 200 anos foi maior do que a diminuição da necessidade de terra por pessoa. Segunda: recursos finitos. Só é possível produzir certa quantidade por acre queimando muito petróleo, carvão e gás, que são a energia solar armazenada de eras passadas, e irão logo esgotar-se. Terceira: poluição. O aumento da produção por acre foi alcançado às custas da poluição do ar, da água e das mudanças climáticas.

Quanto à população, é verdade que qualquer redução da terra usada por pessoa no século XX foi menor do que a quadruplicação da população. Suponha que o processo de Haber, no qual o nitrogênio é extraído do ar, nunca tivesse sido inventado. O século XX certamente teria assistido terríveis penúrias (e crescimento populacional muito menor). Suponha que os combustíveis fósseis não tivessem sido aproveitados no século XIX. A Revolução Industrial britânica teria sido interrompida assim que todos os córregos dos montes Peninos passassem a ser explorados com moinhos de água. Foi pela diminuição da extensão de terra necessária por pessoa alcançada por essas inovações e muitas outras que se tornou possível o imenso crescimento da população.

Esta é a versão do Paradoxo de Jevons, que recebeu o nome de um economista do século XIX, Stanley Jevons. Ele assinalou que, quando os produtos ficam mais baratos, as pessoas utilizam-se mais deles, de modo que a redução do preço da energia levou ao uso mais esbanjador da energia, enquanto o aumento da disponibilidade de alimento levou à sobrevivência de mais bebês. Hoje utilizamos os acres poupados para auxiliar-nos a acender a luz, dirigir Hummers, comer mangas e comprar mansões de uma maneira que impressionaria nossos frugais ancestrais.

Porém, bizarramente, graças a um fenômeno mundial conhecido como transição demográfica, quanto mais ricos, saudáveis e urbanizados nos tornamos, menos bebês nós temos. O ritmo do crescimento populacional têm tido uma diminuição tão abrupta e veloz que a taxa à qual o mundo está adicionando pessoas – em números reais, não apenas em porcentagem – caiu pelos últimos 22 anos. Até mesmo na África a taxa de nascimentos está caindo rapidamente. As Nações Unidas estimam que a população mundial irá parar de crescer completamente quando alcançar em torno de 9,3 bilhões de habitantes em algum ponto depois do ano 2060.

Isso significa que, longe de dobrar como no século XIX, ou quadruplicar como no século XX, a população mundial terá sido multiplicada menos de 1,5 vezes durante este século. A decrescente necessidade de terra para a vida começará a ter mais e mais impacto. À medida que a taxa de crescimento da população desacelera, a pegada da humanidade passará a encolher. Até 2070, cada redução no uso de terra por pessoa será um ganho para toda a espécie.

Na verdade, isso já está acontecendo agora. A costa leste dos Estados Unidos foi uma vez intensamente cultivada. Hoje em dia ela consiste em ilhas de cultivo em um mar de florestas. Em grande parte das Terras Altas da Escócia, o gado e as ovelhas deixaram os montes para os veados. Se não houvesse subsídios e barreiras tarifárias, uma quantidade muito maior de terra deixaria de produzir no rico oeste.

Sim, mas como os recursos são finitos, certamente ficaremos sem petróleo, gás, fósforo, cobre, níquel ou quaisquer outras fontes não renováveis? Primeiramente é preciso observar o surpreendente fato de que são os recursos renováveis que continuamente se esgotam: os mamutes, as baleias azuis, os arenques, os pombos-passageiros, as florestas de pinho branco, os cedros do Líbano, o guano. Em contraste, não há nenhum recurso renovável que tenha se esgotado ainda: nem cobre, petróleo, carvão, ferro, urânio, silício ou pedra. “É uma das previsões mais seguras”, escreveu o economista Joseph Schumpeter em 1943, “que em um futuro calculável viveremos em uma abundância de opções de supérfluos (embarras de richesse), tanto de alimentos quanto de matérias-primas, devido à expansão da produção total com a qual saberemos lidar. Isso se aplica aos recursos minerais também”.

Assim, meu ponto é simplesmente este: a necessidade humana de terras – medida em acres para produzir alimentos, acres para produzir fibras, combustíveis, abrigo ou iluminação – está ficando menor e menor, e tem sido assim por muito tempo.

Considere a humilhante falha das previsões feitas pelo modelo de computador chamado World3 no início dos anos 1970. O World3 tentou prever a capacidade de suporte dos recursos do planeta e concluiu, em um relatório chamado “Limites ao Crescimento”, de autoria do Clube de Roma, que o uso exponencial poderia esgotar o abastecimento mundial de zinco, ouro, estanho, cobre, petróleo e gás natural até 1992, e causar um colapso da civilização e da população no século subsequente. O relatório “Limites ao Crescimento” foi enormemente influente, com livros-texto escolares repetindo suas previsões sem as ressalvas. “Alguns cientistas estimam que os suprimentos conhecidos de petróleo, estanho, cobre e alumínio serão utilizados enquanto você estiver vivo”, dizia um deles. “Os governos devem ajudar a salvar nosso suprimento de combustíveis fósseis fazendo leis que limitem o seu uso”, opinava outro.

A verdade é que, à medida que as melhores fontes de cobre, fósforo ou petróleo esgotam-se e novas técnicas de extração são inventadas, as reservas antes não tão boas tornam-se economicamente viáveis. Nos últimos anos, a perfuração horizontal e o fraturamento hidráulico (fracking) para a extração de gás de folhelho dobraram as reservas americanas de gás natural acessível e barato; a mesma tecnologia está agora sendo experimentada na Europa, Ásia e Austrália e promete uma abundância de gás que durará por décadas. Mesmo que o petróleo convencional se torne escasso, as areias betuminosas, o xisto betuminoso e o gás metano assegurarão o suprimento de combustíveis fósseis por pelo menos um século, talvez por muito mais tempo. Eles serão substituídos no mercado pela energia nuclear ou solar barata muito antes de fisicamente esgotarem-se.

Muito bem, mas um recurso que certamente se esgotará, e talvez muito em breve, é a capacidade da terra de absorver o nosso lixo. Se você procura a pegada ecológica humana, não busque apenas na terra, mas no mar, nos rios e no ar. É por isso que a Global Footprint Network enfatiza tanto o sequestro de carbono. A extensão de terra necessária para retirar o dióxido de carbono do ar é vasta. Mas mesmo aqui existem vários tipos de tendências de melhoramentos. O rio Hudson e o Tâmisa têm menos esgoto e mais peixes. A cidade de Pasadena tem menos poluição. Os ovos de aves suecas têm 75% menos poluentes do que nos anos 1960. As emissões americanas de monóxido de carbono dos transportes diminuíram 75% em 25 anos. O lixo radioativo de testes de armas e acidentes nucleares diminuiu 90% desde o início dos anos 1960.

Quanto ao dióxido de carbono, a descarbonização já está acontecendo. O engenheiro italiano Cesare Marchetti elaborou um gráfico do uso de energia pelo homem nos últimos 150 anos, enquanto ocorria a transição da madeira para o carvão, para o petróleo e para o gás. Em cada caso, a proporção de átomos de carbono e átomos de hidrogênio caiu, de 10 na madeira para 1 no carvão, para ½ no petróleo, para ¼ no metano. Graças ao gás de folhelho barato, o metano pode muito em breve eliminar o carvão – o combustível mais rico em carbono – do mercado de eletricidade. Em 1800, os átomos de carbono faziam 90% da combustão, mas em 1935 a proporção era 50:50 entre carbono e hidrogênio e, até 2100, 90% da combustão pode vir do hidrogênio – provavelmente feita através de eletricidade nuclear ou solar. O especialista em energia Jesse Ausubel prevê que “se o sistema de energia for deixado funcionar ao seu próprio ritmo, a maior parte do carbono será eliminado até 2060 ou 2070”.

É claro que essas mudanças podem não acontecer a tempo de impedir as mudanças climáticas. (Contudo, eu argumentaria que as evidências mostram que as mudanças climáticas têm sido moderadas e vagarosas por muitas décadas até agora – um argumento para uma outra oportunidade). Mas o fato é que as coisas estão caminhando na direção certa. A pegada está encolhendo.

Então, é com incredulidade que assisto os governos do mundo assiduamente tentando aumentar a pegada ecológica humana enquanto alegam estarem salvando o planeta. Eles exaltam o cultivo orgânico, que significa um aumento maciço na terra necessária para a agricultura. (Não me leve a mal: eu não tenho nada contra as pessoas comprarem produtos orgânicos; eu apenas tenho objeções a elas me dizerem que é uma coisa mais ética a se fazer). E quase todas as medidas defendidas para combaterem as mudanças climáticas – energia eólica, das ondas, solar, das marés, hidrelétrica e, acima de todas, os biocombustíveis – aumentariam a extensão de terra necessária para sustentar o estilo de vida humano.

Se os Estados Unidos produzissem o seu próprio combustível para transporte como biocombustível, por exemplo, seria necessário 30% de terra cultivável a mais do que atualmente é utilizada para a produção de alimentos. Onde seriam cultivados os alimentos? O esquema dos biocombustíveis é verdadeiramente um erro terrível, um “crime contra a humanidade”, nas palavras de Jean Ziegler, a relatora especial das Nações Unidas do Direito à Alimentação. Entre 2004 e 2007, a colheita mundial de milho aumentou 51 milhões de toneladas, mas 50 milhões de toneladas foram para o etanol, não deixando nada para suprir o aumento da demanda: por isso ocorreu o aumento dos preços dos alimentos em 2008, causando tumultos e fome. Na realidade, motoristas americanos estavam tirando carboidratos das bocas dos pobres para encherem seus tanques.

Isso poderia ser aceitável se o biocombustível tivesse um grande benefício ambiental. Mas o benefício ambiental do biocombustível não é apenas ilusório; ele é negativo. Cada acre de milho ou cana de açúcar requer combustível de tratores, fertilizantes, defensivos, combustível de caminhões e combustível para a destilação – os quais são feitos de combustíveis fósseis. Então a pergunta é: quanto combustível é necessário para produzir combustível? Resposta: a mesma quantidade. Dependendo de qual estudo você cita, cada unidade de energia empregada no cultivo de milho para etanol produz 71% a 134% em produção de energia. A perfuração e o refino de petróleo, em contraste, geram um retorno de 600% ou mais da energia utilizada.

A chave é que as coisas estão indo na direção certa. A pegada está encolhendo.

Cada incremento no preço do grão causado pela indústria do biocombustível significa mais pressão nas florestas, cuja destruição é a forma mais eficiente de se adicionar dióxido de carbono à atmosfera. Além disso, são necessários cerca de 130 galões de água para cultivar e 5 galões para destilar apenas um galão de etanol de milho – supondo que apenas 15% da safra é irrigada. Pelo contrário, são necessários menos de três galões de água para extrair e dois galões para refinar um galão de gasolina. Cumprir o objetivo dos Estados Unidos de produzir 35 bilhões de galões de etanol por ano requereria usar a quantidade de água consumida por ano por toda a população da Califórnia. Não tenha dúvida: a indústria do biocombustível aumenta amplamente a pegada humana.

O mesmo é verdade em relação a outros renováveis. Para se ter uma ideia de como eles consomem espaço, considere que para suprir os atuais 300 milhões de habitantes dos Estados Unidos, com a sua atual demanda de energia de aproximadamente 10.000 Watts cada (2.400 calorias por segundo), seriam necessários: painéis solares do tamanho da Espanha; ou parques eólicos do tamanho do Cazaquistão; ou bosques do tamanho da Índia e do Paquistão; ou campos de feno para os cavalos do tamanho da Rússia e do Canadá juntos; ou usinas hidrelétricas com represas um terço maiores do que todos os continentes juntos.

Um engenheiro chamado Saul Griffith tem um nome para essas porções de terra: Renewistan. Ele calcula que para manter o nível de dióxido de carbono em 450 partes por milhão, a área dedicada à energia renovável ocuparia um espaço do tamanho da Austrália. Mas não fique com a impressão de que esse é um jeito benigno, suave e verde de utilizar a terra. Um parque eólico na Califórnia mata 24 águias-douradas por ano e pelo menos 2.000 outras aves de rapina; cada turbina nos Apalaches necessita de quatro acres de floresta desmatados. Painéis solares requerem enormes quantidades de aço e concreto. As barragens de marés mudam a ecologia dos estuários. Todos os renováveis precisam estar ligados através de longas filas de postes de energia. Gerar a energia que mantém o ritmo da civilização com energia renovável significaria voltar ao hábito medieval de industrializar a paisagem, mas com uma população dez vezes maior.

Eis um modo diferente de se pensar a pegada humana. Helmut Haberl, da Universidade de Viena, calculou que das 650 bilhões de toneladas de carbono potencialmente absorvidas do ar pelas plantas a cada ano, seres humanos utilizam cerca de 23% para o seu próprio uso: 80 bilhões de toneladas são colhidos, 10 são queimados e 60 são impedidos de crescer por causa de arados, ruas e cabras, deixando 500 para sustentar todas as outras espécies. Isso é o que Haberl chama de AHPPL: Apropriação Humana da Produção Primária Líquida (HANPP em inglês).

Ela varia muito de uma região para outra. Na Sibéria e na Amazônia, talvez 99% da produção de plantas sustenta a vida selvagem, e não pessoas. Em muitas partes da África e da Ásia central, as pessoas reduzem a produtividade da terra mesmo apropriando-se de um quinto da produção – um pasto onde os animais pastam demais, ao ponto de danificarem a vegetação, sustenta menos cabras do que sustentaria antílopes, se fosse selva.

Mas na Europa ocidental e no leste asiático – e este é o ponto crucial – as pessoas aumentam a produtividade da terra a tal ponto que, na verdade, elas aumentam o fluxo de energia para a natureza, mesmo que tomem metade da produção para si. Graças ao processo de Haber, tanto a população quando a vida selvagem na Europa tem mais para comer.

Isso na verdade suscita otimismo, porque sugere que a intensificação da agricultura na África e Ásia central poderia alimentar mais pessoas e ainda dar mais sustento a outras espécies também. Harber diz: “Essas descobertas sugerem que, em uma escala global, pode haver um considerável potencial para elevar a produção agrícola sem necessariamente aumentar a AHPPL”.

De longe, a melhor maneira de reduzir a pegada humana no tamanho desejado no século 21 é a utilização de mais tecnologia para aumentar a produtividade.

A pegada ecológica da humanidade é muito grande. É nosso dever encolhê-la. Mas regredir à agricultura orgânica, à autossuficiência, às energias renováveis ou até mesmo à caça apenas a aumentará, à custa de outras espécies. A melhor maneira de diminuir o tamanho da pegada no século XXI é usar mais tecnologia para aumentar a produtividade, mais fertilizantes para aumentar a produção, mais gás natural – o combustível fóssil menos rico em carbono, menos consumidor de terra e possivelmente mais abundante – para amplificar o trabalho humano e mais prosperidade para diminuir as taxas de natalidade.

Então nossos netos poderão viver vidas de grande riqueza, saúde e sabedoria, enquanto rodeados da vasta natureza selvagem. Mais cidades e mais tigres. Esse é o meu sonho.

O texto acima é uma tradução livre do ensaio de Matt Ridley publicado em 2 de junho de 2010, a capa é a figura no início. Para ver o original, clique aqui

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“Mais quente de todos os tempos…”

Nos últimos dias, a Rede Globo, entre outros, através dos seus veículos e noticiários, repercutiu a “notícia” de que, segundo uma agência norte americana, o mês de Junho de 2015 teria sido mês “mais quente do planeta”, e não faltaram aos repórteres e comentaristas expressões como “de todos os tempos”, etc..

Catastrofismo à parte, o que até eu sei é que temos muitos problemas com as medidas diretas das temperaturas em termômetros. O efeito “ilha de calor” nas estações meteorológicas terrestres próximas a centros urbanos que cresceram, como a do aeroporto de Congonhas (inaugurado em 1936) em São Paulo, por exemplo. Nas décadas de 1930 e 1940, o Jabaquara ainda era um matagal…

Há muito mais água (71%) que terra (29%) na superfície do planeta. As áreas urbanas representam cerca de 2% da superfície terrestre, ou 0,6% da superfície total do planeta. Os satélites que orbitam a Terra desde 1979 são capazes de calcular uma “temperatura média” mais confiável para o planeta, e eu gosto de dar uma olhada de vez em quando no site “The Cryosphere Today”. Lá, a superfície de gelo sobre os oceanos do planeta é mostrada em imagens, gráficos, bases de dados e tudo mais, muito interessante.

Se o planeta estivesse esquentando, mais gelo estaria se derretendo. E se o planeta estivesse esfriando, mais gelo se formaria. Simples assim. Os três gráficos a seguir creio que são os mais significativos.

No Hemisfério Norte:

NHSIA

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No Hemisfério Sul:

SHSIA

Clique na imagem para vê-la maior

E no planeta todo, somando-se o gelo sobre os oceanos do Hemisfério Norte com o do Hemisfério Sul:

GSIAwt

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Vejamos e convenhamos: o passado mês de Junho não deve ter sido o mais quente…, não é o que se vê com esses dados…, nada de extraordinário, sobretudo quando se considera a variabilidade natural do tempo, em termos meteorológicos…

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Encíclica ‘Laudato Si’

Sua Santidade o Papa Francisco publicou hoje a Encíclica ‘Laudato Si’, “Sobre o cuidado da casa comum”. 246 parágrafos, 2 orações e muitas referências. Concordo com o Santo Padre em muitos aspectos. Porém, no capítulo I (“O que está a acontecer à nossa casa”), item 1 (“Poluição e mudanças climáticas”), sub item “O clima como bem comum”, parágrafos 23 a 26, quando faz um diagnóstico da situação atual, o Santo Padre recorre à surrada ladainha do “aquecimento do sistema climático”, “elevação constante do nível do mar”, “acontecimentos meteorológicos extremos” e “derretimento das calotas polares e dos glaciares”, e embora reconheça que o sistema climático “é um sistema complexo” e que “não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenômeno particular”, insiste em considerar tendenciosamente que “numerosos estudos científicos indicam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas é devida à alta concentração de gases com efeito de estufa”. “Se a tendência actual se mantiver”, profetiza o Santo Padre, “este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e duma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós”. Eu gosto do Papa Francisco, reconheço o valor de sua pregação por seu exemplo e pelos atos que pratica, mas por tudo o que tenho publicado neste blog, discordo desse diagnóstico do Santo Padre.

Reitero que o CO₂ não é um poluente! O Sol, a água e o CO₂ são essenciais para a fotossíntese e para a vida – tal e como a conhecemos – na “casa comum” a que Sua Santidade se refere. O Santo Padre fala em “numerosos estudos científicos” que confirmariam as suas hipóteses, mas desconsidera os tão ou mais numerosos estudos científicos que mostram justamente o contrário: que o planeta não só não está se aquecendo, como, eventualmente, está se arrefecendo; que o nível do mar está em elevação desde o final da última era glacial, o que não tem nada a ver com a atividade dos humanos; que eventos climáticos extremos não estão ocorrendo com frequência maior hoje do que sempre ocorreram; que não está ocorrendo o derretimento das calotas polares, senão o contrário; etc..

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Consultor do governo australiano afirma que mudanças climáticas são uma farsa da ONU

Maurice Newman atacou a organização alegando pouca evidência do fenômeno.

As muitas pesquisas dos principais centros científicos do mundo dando conta das mudanças já vividas no planeta não convencem os chamados “céticos do clima”. Um dos principais consultores empresariais do governo australiano afirmou em um artigo de opinião para o jornal “The Australian” que as mudanças climáticas são uma farsa das Nações Unidas. A maioria dos modelos climáticos estava errada e havia pouca evidência de mudanças climáticas, disse Maurice Newman. Ele alegou que a ONU tinha usado o fenômeno como um “gancho” para estabelecer e controlar uma nova ordem mundial – comentários que causaram rejeição de especialistas no assunto.

A ONU, disse ele, estava gastando centenas de bilhões de dólares por ano em “fúteis políticas de mudanças climáticas”. “A agenda real é autoridade política concentrada”, disse ele. “O aquecimento global é o gancho”.

Questionado em uma coletiva de imprensa o que ele achava das colocações de Newman, o ministro do Meio Ambiente australiano, Greg Hunt, disse que indivíduos têm “direito de ter suas opiniões”.

Os governos de coalizão na Austrália têm uma história de ceticismo com as mudanças climáticas. Uma das primeiras ações do atual governo quando ganhou o poder em 2013 foi despejar as taxas governamentais de trabalho sobre as emissões de carbono por causa do custo para a indústria.

A ONU diz que há um forte consenso científico de que o clima global está mudando e que a atividade humana contribui significativamente para esta tendência. Em uma base per capita, a Austrália é um dos maiores emissores mundiais de gases do efeito estufa.

“É um segredo bem guardado, mas constatou-se que 95% dos modelos climáticos que teoricamente provavam a ligação entre as emissões humanas de CO₂ e o aquecimento global catastrófico estão errados”, escreveu Newman, que preside o Conselho Consultivo Empresarial do primeiro-ministro Tony Abbott e é um ex-presidente da Bolsa Australiana.

Ele complementou, ainda, que o público tinha sido “submetido à extravagância de catastrofistas do clima por cerca de 50 anos”, e engoliu “previsões falhas” de agências meteorológicas que apresentaram dados “homogeneizados” para atender às narrativas. A respeito do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, que analisa e avalia os trabalhos científicos relevantes para mudanças climáticas da ONU, Newman afirmou que este tinha sido exposto repetidamente por “declarações falsas e métodos de má qualidade”.

Matéria publicada em O Globo em 08/05/2015

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Diferenças entre a Ciência real e a “ciência” do aquecimento global

Há ao menos uma dúzia de diferenças entre a Ciência real e a “ciência” do aquecimento global antropogênico (AGA). Enquanto a Ciência real segue o método científico, a “ciência” do AGA utiliza ferramentas políticas de campanha, como enquetes e votações, demoniza os opositores, utiliza táticas de intimidação, enganação e propaganda.

1. A Ciência real estimula o “questione tudo”. A “ciência” do AGA afirma insistentemente: “questionar o aquecimento global é imprudente, porque ele é uma ameaça ao planeta”.

2. A Ciência real nunca termina, ela é um ciclo contínuo de testes e correções. A “ciência” do AGA tenta por todos os meios quebrar esse ciclo ao afirmar que “o debate é longo” e “a ciência está estabelecida”. “Ciência estabelecida” é um paradoxo inventado pelo político, não cientista, Al Gore, para evitar debater suas crenças rentáveis em público. Al Gore, contratualmente, não aceita perguntas nem questionamentos – ele chega, fala e vai embora.

3. A Ciência real desenvolve hipóteses que são falsificáveis via previsões testáveis. A “ciência” do AGA não é refutável, porque faz contradições, mudando as projeções. Mais furações ou menos furacões, mais ou menos neve, temperaturas mais quentes ou mais frias do que a média, etc, são todos citados após o fato como prova do AGA. Não há observação da natureza que os proponentes da ciência do AGA aceite como prova contrária à sua crença. Os modelos climáticos criados pelos aquecientistas abusam de valores numéricos que são atribuídos por quem faz ou usa esses modelos – os famosos parâmetros (link).

4. A Ciência real baseia-se em ceticismos para fazer progressos. Muitos cientistas reais durante suas carreiras tentam refutar o conhecimento aceito. A “ciência” do AGA, por outro lado, intimida e difama os céticos como “descrentes” equiparando-os aos negadores do Holocausto e os tratando tal qual a Igreja tratou Galileu. Veja-se aqui um exemplo desse modus operandi.

5. A Ciência real concede prêmios para refutar as verdades aceitas. Os pesquisadores e apoiadores da “ciência” do AGA, por outro lado, têm interesses inconfessáveis em apenas um resultado. Eles continuarão a acessar bilhões de dólares em dinheiro dos contribuintes, enquanto o aquecimento global for percebido pelo público como uma ameaça para a humanidade (link).

6. A Ciência real não tem nada a ver com sondagens de opinião ou consenso, mas os proponentes da ciência do AGA constantemente se utilizam de votações para defender suas reivindicações. Ironicamente, mesmo quando eles as usam, têm que “trabalhar” os resultados (link).

7. A Ciência real não tem a pretensão de validade, citando as credenciais dos proponentes. Ela respeita apenas os dados e análises, independentemente de quem os esteja publicando. Einstein era um desconhecido auxiliar de escritório de patentes, quando derrubou o entendimento consensual de espaço e tempo, em 1905, com a Teoria da Relatividade Especial. Como afirma Richard Feynman, Prêmio Nobel de Física: “Não importa o quão bonito é o seu palpite ou quão inteligente você é ou qual nome você tem. Se o seu palpite não concorda com a experiência, ele está errado”.

8. Na Ciência real, são realizados testes para remover preconceitos e descartar modelos ruins. A Teoria da Relatividade de Einstein ainda está sendo testada, um século depois de sua publicação. A “ciência” do AGA ignora ou oculta dados que não a ajudam (link).

9. A Ciência real aceita que as previsões ruins originaram-se de hipóteses ruins. Quando as projeções (ou previsões) dos defensores da “ciência” do AGA estão erradas, eles não questionam as hipóteses; apenas mudam as projeções e redefinem o movimento.

10. A Ciência real nunca recomenda que aqueles que não concordam com uma hipótese ou teoria sejam presos. Por outro lado, muitos dos aquecimentistas e apoiadores da “ciência” do AGA não pensam assim. O doutor Lawrense Torcello, professor de Filosofia do Instituto de Tecnologia de Rochester, expressa a opinião de que as modificações antropogênicas do clima são reais e que matarão muitas pessoas. Portanto, propõe que as leis vigentes deveriam ser usadas para punir aqueles cujas mentiras estariam contribuindo para matar pessoas. É tempo de punir os mentirosos que negam as mudanças climáticas, ele conclui. No mês de março passado, Al Gore foi ao Festival Sul e Sudoeste, em Austin, Texas, e disse: “Nós precisamos por um preço no carbono, para acelerar essas tendências de mercado. Para fazer isso, nós precisamos responsabilizar os negadores da política e precisamos punir os negadores das mudanças climáticas” (link).

11. A Ciência real não cria bilionários, que se tornaram ricos vendendo hipóteses não comprovadas.

12. A Ciência real tenta explicar todas as variáveis que interferem nos estudos. A “ciência” do AGA simplesmente ignora todas as variáveis que têm impactado drasticamente o clima da Terra durante bilhões de anos, a menos que estes fatores sejam necessários para desculpar projeções defeituosas.

José Carlos Parente de Oliveira, Físico, Doutor em Física e Pós-doutor em Física da Atmosfera; Professor Associado (aposentado) da Universidade Federal do Ceará (UFC) e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). Foi um dos 25 signatários da carta aberta “Rumo a uma política climática baseada em constatações e bom senso”, enviada em janeiro ao ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo.

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Hora do Planeta: acenda as luzes, celebre a eletricidade

Às 20h30min do último sábado, pessoas e locais públicos em todo o mundo desligaram as luzes durante uma hora para aumentar a conscientização sobre o impacto do uso da energia nas mudanças climáticas.

Infelizmente, esta Hora do Planeta é nada mais que um evento de bem-estar ineficaz. É muito pouco para o clima em termos de redução das emissões de CO₂ e nos distrai dos verdadeiros problemas e soluções – especialmente dar luz àqueles na escuridão.

Enquanto mais de um bilhão de pessoas eventualmente participam desligando suas luzes por uma hora – e economizam no máximo o equivalente à China deter suas emissões de CO₂ por menos de quatro minutos – 1,3 bilhão de pessoas em todo o mundo em desenvolvimento vai continuar a viver sem eletricidade, como fazem todas as noites do ano.

Quase 3 bilhões de pessoas ainda queimam estrume, galhos e outros combustíveis tradicionais dentro de casa para cozinhar e se aquecer. Esses combustíveis emitem gases nocivos que estão ligados a 4,3 milhões de mortes a cada ano, a maioria mulheres e crianças.

Na verdade, foi o advento da energia elétrica generalizada que nos libertou de tais práticas nocivas e que ainda afetam grande parte do mundo em desenvolvimento.

Celebrar a escuridão sinaliza o afastamento de um futuro cada vez mais brilhante. E não é apenas metaforicamente, porque as políticas climáticas mantém a produção de eletricidade mais cara. E isso dói especialmente nos mais pobres. Com os preços da eletricidade aumentando 80% na Alemanha desde 2000, e com subsídios às energias renováveis de 21,8 bilhões de euros este ano, 800 mil alemães por ano têm sua energia cortada porque eles já não podem se dar ao luxo de pagar as contas.

No mundo em desenvolvimento, os governos ocidentais bem-intencionados estão se opondo ao financiamento de novas usinas a carvão que poderiam evitar apagões em países como o Paquistão. Em vez disso, estamos agora adicionando mais desemprego e desesperança econômica.

E a escuridão que deixa 1,3 bilhão de pessoas sem eletricidade torna as coisas mais difíceis. Cada vez mais, insistimos que elas só devem ser autorizadas a dispor de eletricidade se ela for renovável.

No entanto, uma nova análise do Centro para o Desenvolvimento Global concluiu que, em vez de investir 10 bilhões de dólares em energia renovável, pode-se tirar uma pessoa da pobreza por cerca de 500 dólares. E se usássemos centrais de ciclo combinado a gás natural, seria mais do que quatro vezes mais eficiente. Ao insistir em energias renováveis, nós deliberadamente optamos por deixar 60 milhões de pessoas na escuridão e na pobreza. Isso parece hipócrita, pois o mundo rico recebe apenas 0,8% de sua energia a partir de tecnologias de energia solar e eólica caras, que permanecem pouco confiáveis. Mesmo com orçamentos optimistas, a Agência Internacional de Energia estima que, em 2035, vamos produzir apenas 2,6% da nossa energia a partir do vento e menos de 1% de solar fotovoltaica.

A maioria dos participantes celebra a Hora do Planeta com a melhor das intenções. Mas em vez de desligar as luzes para todos, vamos nos concentrar em encontrar soluções brilhantes que podem fazer a diferença, tanto para o clima como para os pobres.

O texto acima é uma tradução livre de um artigo de Bjørn Lomborg publicado no LinkedIn. Para ver o original, clique aqui

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“O aquecimento global não é o vilão da crise hídrica de São Paulo”

Para o meteorologista Augusto José Pereira Filho, professor da USP, a falta de nuvens é a explicação para a seca que atinge o Sudeste. Nesta entrevista, ele afirma que o fenômeno é causado por fatores como a era geológica em que vivemos e o movimento atmosférico natural do planeta. A próxima estiagem, diz ele, já tem data para ocorrer: entre 2019 e 2024

A crise hídrica que afeta o Sudeste levou a uma busca por explicações para a ausência das chuvas. A hipótese mais forte, segundo meteorologistas e ativistas, é que o aquecimento global seja a razão por trás do calor e seca sem precedentes. O planeta estaria sofrendo as consequências das emissões de CO₂ causadas pelo homem: temperaturas extremas, desequilíbrio ambiental, falta d’água. Na última quinta-feira, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) alertou que a estiagem e a crise hídrica de vários países, provocadas pelas mudanças climáticas, pode levar a conflitos entre as nações. Para Augusto José Pereira Filho, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e um dos maiores especialistas do Brasil em recursos hídricos e previsões climáticas, a explicação é outra.

Com sua experiência de meteorologista com títulos e qualificações em instituições como a Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), Pereira Filho desmente as relações entre a estiagem que vivemos e o desmatamento da Amazônia ou o acúmulo de CO₂. Em seu gabinete da universidade, rodeado por dados de radares, satélites e dados dos milímetros de chuva que caem na região metropolitana de São Paulo, prevê com a precisão que a ciência atual é capaz de oferecer que essa crise se tornará rotina: a próxima deve atingir o Sudeste entre 2019 e 2024.

“Esse fenômeno é causado por fatores como a era geológica em que vivemos e o movimento atmosférico natural do planeta. Trata-se de um ciclo que tem ocorrido a cada cinco ou dez anos”, afirma.

Ação do homem — O cientista também questiona a certeza de que o homem está por trás do aquecimento global. Nosso impacto, diz Pereira Filho, é determinante apenas localmente. Para o planeta, somos um dos inúmeros e complexos fatores a influir em suas condições meteorológicas — e estamos longe de ser os mais fortes.

Nesta entrevista, Pereira Filho afirma que ainda existem incertezas sobre o funcionamento de mecanismos climáticos e meteorológicos básicos, como o ciclo da água ou das nuvens. Nessa área, a ciência esbarra em limitações que tornam impossível afirmar que há apenas uma causa para explicar nevascas, secas ou tempestades inesperadas. São conjuntos de fatores que, unidos, trabalham para gerar as temperaturas e eventos que conhecemos. E, às vezes, eles surpreendem.

Na última quinta-feira, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) alertou que a seca e a crise hídrica de vários países, causadas pelas mudanças climáticas, pode levar a conflitos. Há relação entre o aquecimento global e a seca que o Sudeste enfrenta? O aquecimento global não é o vilão da crise hídrica de São Paulo. Essa crise acontece porque as nuvens sumiram justamente na estação chuvosa de São Paulo. A região metropolitana é uma ilha de calor, isto é, mais quente do que o seu entorno, por causa da poluição, concreto e asfalto. Esse fenômeno favorece as chuvas e, por isso, chove muito mais na cidade que no passado. Os anos de 2010 a 2013 estão entre os dez mais chuvosos da história de São Paulo.

Como pode estar mais seco e chover mais? Não há falta de chuva? Está chovendo mais, mas nos lugares errados. Chove sobre a capital, que é uma ilha de calor, mas não está chovendo sobre o sistema Cantareira. São regiões que passam por situações meteorológicas diferentes. O ano de 2014 não é o ano mais seco da história da cidade de São Paulo, mas o 13º no ranking.

Então por que essa seca é vista como histórica? A região metropolitana está mais quente, mais seca e com poucas nuvens. Assim, quando a chuva se forma, são tempestades intensas devido ao excesso de calor e umidade trazida pela brisa do mar — que evaporam rapidamente por causa das altas temperaturas. Além disso, com o calor, as pessoas consomem mais água, agravando sua falta nos reservatórios. Em janeiro, de acordo com nossas medições, choveu acima da média na cidade de São Paulo.

Os dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que em janeiro em São Paulo houve apenas 156,2 milímetros de precipitação, abaixo da média histórica (de 1943 a 2015) de 262,4 milímetros. Por que o senhor diz que choveu mais? A estação do IAG tem dados diferentes, que mostram que choveu 261 milímetros, ou seja, 40 milímetros acima da média histórica (de 1933 a 2014) de 220 milímetros. Essa diferença nas medições acontece porque a estação do Inmet está no mirante de Santana, um lugar que se modificou muito nos últimos sessenta anos, com ocupação e construções. Já a estação do IAG está sobre um lago no Parque do Estado, na capital. Como essa é uma área protegida, ela não sofreu alterações significativas desde que foi construída e, assim, é capaz de registrar apenas as variações climáticas. Em meteorologia, sutilezas como essas são muito importantes.

Então não é possível confiar nos dados? É prudente saber de onde vêm. Estações meteorológicas, pluviômetros, radares e satélites são equipamentos sensíveis e que precisam de manutenção constante. É difícil conhecer as condições de todos os equipamentos para saber exatamente a qualidade dos dados. Pode haver interferências de todo o tipo nas informações. Se um pluviômetro está no meio da floresta e um passarinho faz seu ninho sobre ele, os dados são alterados.

Outra hipótese levantada sobre as causas da seca no Sudeste é o desmatamento na Amazônia. Há alguma relação? Não tem nada a ver uma coisa com a outra. O papel da Amazônia é transferir a umidade do Atlântico para o Sudeste e Sul. A Amazônia é uma dádiva do Oceano Atlântico. A floresta também sofreu com a falta de chuvas. A seca está relacionada, entre outros fatores, à ausência da Zona de Convergência do Atlântico Sul. Esse fenômeno, caracterizado por nuvens e massas de ar frio que atraem a umidade da Amazônia e a injeta no Sudeste, trazendo chuvas, de início se deslocou em direção à Bahia e, em seguida, deixou de acontecer.

Tornou-se um consenso entre os cientistas atribuir a responsabilidade pelas mudanças climáticas ao homem. Qual nossa parcela de culpa na estiagem de São Paulo? É mais plausível associar a estiagem a uma variação natural que a mudanças climáticas globais. Dito isto, a ilha de calor que é a região metropolitana tem origem humana. Nosso impacto é significativo nas condições climáticas de São Paulo e, como a região está delimitada, essa ação pode ser medida e calculada. E pode também ser revertida com educação ambiental e um melhor monitoramento hídrico e meteorológico. Claro que, como tudo no planeta está interligado, essas mudanças locais têm algum impacto no sistema global. Mas há muitos outros fatores mais importantes para modificar o clima mundial.

Quais seriam esses outros fatores? Os mais importantes são variações do movimento da Terra em torno do Sol, que modificam a quantidade de nuvens e gelo, a circulação na atmosfera e nos oceanos. Não sabemos ao certo nem como se dá o ciclo das águas no planeta. A compreensão de todos esses fatores ainda é uma incógnita. A meteorologia é uma ciência recente. Basta lembrar que radares e satélites são tecnologias do século XX. São necessários dados muito confiáveis para fazer afirmações como a de que o homem é responsável pelo aquecimento que vivemos – e eles ainda são limitados, incompletos e imprecisos. Além disso, todas essas condições funcionam em escalas de tempo imensas. Análises geológicas sugerem que a temperatura global, durante a maior parte da história da Terra, foi entre 8 e 15 graus Celsius maior que na atualidade. Não sabemos se o que está acontecendo não é, simplesmente, um processo natural do planeta. Por isso, qualquer afirmação de longo prazo é discutível: o sistema climático está além da compreensão atual da ciência.

Então também não é possível dizer que o CO₂ está por trás do atual aquecimento? O CO₂ não é um vilão. Esquecemos que essa molécula é o tijolo fundamental da vida, necessário para todos os seres vivos do planeta. A maior parte do CO₂ do planeta está nos oceanos, que são um depósito natural de material orgânico. Além disso, ele tem um ciclo anual, aumenta durante o inverno e diminui no verão. É como se o planeta passasse por um processo de lavagem durante os meses quentes. Estamos percebendo que ele está aumentado, mas não é o CO₂ que determina a temperatura. São as nuvens, e ainda não temos um mapa confiável sobre sua quantidade e distribuição no globo.

Há indícios de que o Hemisfério Sul está aquecido, com a camada de gelo mais fina. Isso revela o aquecimento do planeta? A quantidade de gelo do Ártico, no Norte, e da Antártica, no Sul, também varia durante as estações do ano. Diminui no verão e aumenta no inverno. O que as análises internacionais demonstram é que a Antártica está um pouco mais fria, ou seja, com mais gelo, e o Hemisfério Norte, um pouco mais quente. No entanto, essas medições estão dentro das margens de incertezas.

Se há tantas incertezas, a seca e a crise hídrica do Sudeste poderiam ter sido previstas? Nenhum meteorologista se atreve a fazer previsões para além de duas semanas. O sistema atmosférico é caótico e um dia é capaz de mudar tudo. No entanto, havia prognósticos climáticos que indicavam chuvas próximas ao normal para o início de 2014 – elas ficaram abaixo. Períodos de estiagem em São Paulo ocorreram entre 4 e 11 anos nas última seis décadas. Ou seja, depois de 2014 e 2015, a próxima poderá ocorrer entre o fim desta década e meados da próxima.

E ela será pior? Dada a crescente demanda por água e a escassez desse recurso, agravada pela degradação ambiental, a próxima estiagem poderá ser mais impactante. De acordo com as medições do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG), entre 1936 e 2005 a temperatura média da região metropolitana de São Paulo aumentou 2,1 graus Celsius. Os meses de calor, que no início do século XX iam de dezembro a fevereiro, hoje se estendem de setembro a março. Nesse mesmo período de quase setenta anos, devido à poluição, a umidade relativa do ar caiu 7%.

E o que podemos fazer, já que estamos à mercê das condições meteorológicas? O racionamento em São Paulo deveria ter começado em janeiro de 2014, para amenizar a crise que estamos vivendo. No entanto, contou-se com a chuva, que não veio. Temos recursos hídricos limitados. Fizemos um levantamento com os dados da Sabesp de 2003 a 2013 que mostram que, na última década, o consumo aumentou 15% e a produção de água, apenas 11%. Assim, se nada for feito, nos próximos 20 anos será necessária uma nova Cantareira para abastecer a região metropolitana. Ou poderíamos reduzir o consumo e aumentar a produção de água, o que seria mais barato e sustentável. Mas isso demanda um investimento pesado do governo e da sociedade em educação ambiental e na melhora do sistema de monitoramento da Sabesp, com a integração de dados de estações meteorológicas, radares e mapas hídricos. Além disso, é necessário haver uma Política Nacional de Meteorologia e Climatologia como, aliás, qualquer país desenvolvido tem. Só com a integração dos equipamentos, recursos e profissionais será possível evitar situações como essa e outras mais recorrentes, como as enchentes. A meteorologia é um serviço fundamental, com impacto imenso na vida das pessoas, na economia e no desenvolvimento das nações.

Entrevista de Rita Loiola com Augusto José Pereira Filho para a Veja, publicada em 08/02/2015.

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Responsável pelo blog

Mario de Carvalho Fontes Neto, engenheiro agrônomo


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