“O aquecimento global não é o vilão da crise hídrica de São Paulo”

Para o meteorologista Augusto José Pereira Filho, professor da USP, a falta de nuvens é a explicação para a seca que atinge o Sudeste. Nesta entrevista, ele afirma que o fenômeno é causado por fatores como a era geológica em que vivemos e o movimento atmosférico natural do planeta. A próxima estiagem, diz ele, já tem data para ocorrer: entre 2019 e 2024

A crise hídrica que afeta o Sudeste levou a uma busca por explicações para a ausência das chuvas. A hipótese mais forte, segundo meteorologistas e ativistas, é que o aquecimento global seja a razão por trás do calor e seca sem precedentes. O planeta estaria sofrendo as consequências das emissões de CO₂ causadas pelo homem: temperaturas extremas, desequilíbrio ambiental, falta d’água. Na última quinta-feira, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) alertou que a estiagem e a crise hídrica de vários países, provocadas pelas mudanças climáticas, pode levar a conflitos entre as nações. Para Augusto José Pereira Filho, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e um dos maiores especialistas do Brasil em recursos hídricos e previsões climáticas, a explicação é outra.

Com sua experiência de meteorologista com títulos e qualificações em instituições como a Organização Meteorológica Mundial (WMO, na sigla em inglês), Pereira Filho desmente as relações entre a estiagem que vivemos e o desmatamento da Amazônia ou o acúmulo de CO₂. Em seu gabinete da universidade, rodeado por dados de radares, satélites e dados dos milímetros de chuva que caem na região metropolitana de São Paulo, prevê com a precisão que a ciência atual é capaz de oferecer que essa crise se tornará rotina: a próxima deve atingir o Sudeste entre 2019 e 2024.

“Esse fenômeno é causado por fatores como a era geológica em que vivemos e o movimento atmosférico natural do planeta. Trata-se de um ciclo que tem ocorrido a cada cinco ou dez anos”, afirma.

Ação do homem — O cientista também questiona a certeza de que o homem está por trás do aquecimento global. Nosso impacto, diz Pereira Filho, é determinante apenas localmente. Para o planeta, somos um dos inúmeros e complexos fatores a influir em suas condições meteorológicas — e estamos longe de ser os mais fortes.

Nesta entrevista, Pereira Filho afirma que ainda existem incertezas sobre o funcionamento de mecanismos climáticos e meteorológicos básicos, como o ciclo da água ou das nuvens. Nessa área, a ciência esbarra em limitações que tornam impossível afirmar que há apenas uma causa para explicar nevascas, secas ou tempestades inesperadas. São conjuntos de fatores que, unidos, trabalham para gerar as temperaturas e eventos que conhecemos. E, às vezes, eles surpreendem.

Na última quinta-feira, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) alertou que a seca e a crise hídrica de vários países, causadas pelas mudanças climáticas, pode levar a conflitos. Há relação entre o aquecimento global e a seca que o Sudeste enfrenta? O aquecimento global não é o vilão da crise hídrica de São Paulo. Essa crise acontece porque as nuvens sumiram justamente na estação chuvosa de São Paulo. A região metropolitana é uma ilha de calor, isto é, mais quente do que o seu entorno, por causa da poluição, concreto e asfalto. Esse fenômeno favorece as chuvas e, por isso, chove muito mais na cidade que no passado. Os anos de 2010 a 2013 estão entre os dez mais chuvosos da história de São Paulo.

Como pode estar mais seco e chover mais? Não há falta de chuva? Está chovendo mais, mas nos lugares errados. Chove sobre a capital, que é uma ilha de calor, mas não está chovendo sobre o sistema Cantareira. São regiões que passam por situações meteorológicas diferentes. O ano de 2014 não é o ano mais seco da história da cidade de São Paulo, mas o 13º no ranking.

Então por que essa seca é vista como histórica? A região metropolitana está mais quente, mais seca e com poucas nuvens. Assim, quando a chuva se forma, são tempestades intensas devido ao excesso de calor e umidade trazida pela brisa do mar — que evaporam rapidamente por causa das altas temperaturas. Além disso, com o calor, as pessoas consomem mais água, agravando sua falta nos reservatórios. Em janeiro, de acordo com nossas medições, choveu acima da média na cidade de São Paulo.

Os dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que em janeiro em São Paulo houve apenas 156,2 milímetros de precipitação, abaixo da média histórica (de 1943 a 2015) de 262,4 milímetros. Por que o senhor diz que choveu mais? A estação do IAG tem dados diferentes, que mostram que choveu 261 milímetros, ou seja, 40 milímetros acima da média histórica (de 1933 a 2014) de 220 milímetros. Essa diferença nas medições acontece porque a estação do Inmet está no mirante de Santana, um lugar que se modificou muito nos últimos sessenta anos, com ocupação e construções. Já a estação do IAG está sobre um lago no Parque do Estado, na capital. Como essa é uma área protegida, ela não sofreu alterações significativas desde que foi construída e, assim, é capaz de registrar apenas as variações climáticas. Em meteorologia, sutilezas como essas são muito importantes.

Então não é possível confiar nos dados? É prudente saber de onde vêm. Estações meteorológicas, pluviômetros, radares e satélites são equipamentos sensíveis e que precisam de manutenção constante. É difícil conhecer as condições de todos os equipamentos para saber exatamente a qualidade dos dados. Pode haver interferências de todo o tipo nas informações. Se um pluviômetro está no meio da floresta e um passarinho faz seu ninho sobre ele, os dados são alterados.

Outra hipótese levantada sobre as causas da seca no Sudeste é o desmatamento na Amazônia. Há alguma relação? Não tem nada a ver uma coisa com a outra. O papel da Amazônia é transferir a umidade do Atlântico para o Sudeste e Sul. A Amazônia é uma dádiva do Oceano Atlântico. A floresta também sofreu com a falta de chuvas. A seca está relacionada, entre outros fatores, à ausência da Zona de Convergência do Atlântico Sul. Esse fenômeno, caracterizado por nuvens e massas de ar frio que atraem a umidade da Amazônia e a injeta no Sudeste, trazendo chuvas, de início se deslocou em direção à Bahia e, em seguida, deixou de acontecer.

Tornou-se um consenso entre os cientistas atribuir a responsabilidade pelas mudanças climáticas ao homem. Qual nossa parcela de culpa na estiagem de São Paulo? É mais plausível associar a estiagem a uma variação natural que a mudanças climáticas globais. Dito isto, a ilha de calor que é a região metropolitana tem origem humana. Nosso impacto é significativo nas condições climáticas de São Paulo e, como a região está delimitada, essa ação pode ser medida e calculada. E pode também ser revertida com educação ambiental e um melhor monitoramento hídrico e meteorológico. Claro que, como tudo no planeta está interligado, essas mudanças locais têm algum impacto no sistema global. Mas há muitos outros fatores mais importantes para modificar o clima mundial.

Quais seriam esses outros fatores? Os mais importantes são variações do movimento da Terra em torno do Sol, que modificam a quantidade de nuvens e gelo, a circulação na atmosfera e nos oceanos. Não sabemos ao certo nem como se dá o ciclo das águas no planeta. A compreensão de todos esses fatores ainda é uma incógnita. A meteorologia é uma ciência recente. Basta lembrar que radares e satélites são tecnologias do século XX. São necessários dados muito confiáveis para fazer afirmações como a de que o homem é responsável pelo aquecimento que vivemos – e eles ainda são limitados, incompletos e imprecisos. Além disso, todas essas condições funcionam em escalas de tempo imensas. Análises geológicas sugerem que a temperatura global, durante a maior parte da história da Terra, foi entre 8 e 15 graus Celsius maior que na atualidade. Não sabemos se o que está acontecendo não é, simplesmente, um processo natural do planeta. Por isso, qualquer afirmação de longo prazo é discutível: o sistema climático está além da compreensão atual da ciência.

Então também não é possível dizer que o CO₂ está por trás do atual aquecimento? O CO₂ não é um vilão. Esquecemos que essa molécula é o tijolo fundamental da vida, necessário para todos os seres vivos do planeta. A maior parte do CO₂ do planeta está nos oceanos, que são um depósito natural de material orgânico. Além disso, ele tem um ciclo anual, aumenta durante o inverno e diminui no verão. É como se o planeta passasse por um processo de lavagem durante os meses quentes. Estamos percebendo que ele está aumentado, mas não é o CO₂ que determina a temperatura. São as nuvens, e ainda não temos um mapa confiável sobre sua quantidade e distribuição no globo.

Há indícios de que o Hemisfério Sul está aquecido, com a camada de gelo mais fina. Isso revela o aquecimento do planeta? A quantidade de gelo do Ártico, no Norte, e da Antártica, no Sul, também varia durante as estações do ano. Diminui no verão e aumenta no inverno. O que as análises internacionais demonstram é que a Antártica está um pouco mais fria, ou seja, com mais gelo, e o Hemisfério Norte, um pouco mais quente. No entanto, essas medições estão dentro das margens de incertezas.

Se há tantas incertezas, a seca e a crise hídrica do Sudeste poderiam ter sido previstas? Nenhum meteorologista se atreve a fazer previsões para além de duas semanas. O sistema atmosférico é caótico e um dia é capaz de mudar tudo. No entanto, havia prognósticos climáticos que indicavam chuvas próximas ao normal para o início de 2014 – elas ficaram abaixo. Períodos de estiagem em São Paulo ocorreram entre 4 e 11 anos nas última seis décadas. Ou seja, depois de 2014 e 2015, a próxima poderá ocorrer entre o fim desta década e meados da próxima.

E ela será pior? Dada a crescente demanda por água e a escassez desse recurso, agravada pela degradação ambiental, a próxima estiagem poderá ser mais impactante. De acordo com as medições do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG), entre 1936 e 2005 a temperatura média da região metropolitana de São Paulo aumentou 2,1 graus Celsius. Os meses de calor, que no início do século XX iam de dezembro a fevereiro, hoje se estendem de setembro a março. Nesse mesmo período de quase setenta anos, devido à poluição, a umidade relativa do ar caiu 7%.

E o que podemos fazer, já que estamos à mercê das condições meteorológicas? O racionamento em São Paulo deveria ter começado em janeiro de 2014, para amenizar a crise que estamos vivendo. No entanto, contou-se com a chuva, que não veio. Temos recursos hídricos limitados. Fizemos um levantamento com os dados da Sabesp de 2003 a 2013 que mostram que, na última década, o consumo aumentou 15% e a produção de água, apenas 11%. Assim, se nada for feito, nos próximos 20 anos será necessária uma nova Cantareira para abastecer a região metropolitana. Ou poderíamos reduzir o consumo e aumentar a produção de água, o que seria mais barato e sustentável. Mas isso demanda um investimento pesado do governo e da sociedade em educação ambiental e na melhora do sistema de monitoramento da Sabesp, com a integração de dados de estações meteorológicas, radares e mapas hídricos. Além disso, é necessário haver uma Política Nacional de Meteorologia e Climatologia como, aliás, qualquer país desenvolvido tem. Só com a integração dos equipamentos, recursos e profissionais será possível evitar situações como essa e outras mais recorrentes, como as enchentes. A meteorologia é um serviço fundamental, com impacto imenso na vida das pessoas, na economia e no desenvolvimento das nações.

Entrevista de Rita Loiola com Augusto José Pereira Filho para a Veja, publicada em 08/02/2015.

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Rumo a uma política climática baseada em constatações e bom senso

Carta aberta ao Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação

São Paulo, 26 de janeiro de 2015

Exmo. Sr.
José Aldo Rebelo Figueiredo
Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação

As posições críticas de V.Exa. sobre a tendência prevalecente nas questões climáticas, que atribui às atividades humanas uma suposta e não comprovada influência na dinâmica do clima nos últimos dois séculos, são de domínio público e têm motivado questionamentos à vossa nomeação para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), tanto no Brasil como no exterior.

Assim sendo, os signatários da presente reiteram que as discussões e a formulação das políticas públicas sobre as questões climáticas têm sido pautadas, predominantemente, por equivocadas e restritas motivações ideológicas, políticas, econômicas e acadêmicas – o que as têm afastado não apenas dos princípios basilares da prática científica, mas também dos interesses maiores das sociedades de todo o mundo, inclusive a brasileira.

Estamos conscientes de que a extensão de tais interesses específicos e dos compromissos internacionais assumidos pelo País com a agenda da “descarbonização” da economia mundial faz com que qualquer tentativa de reorientação da pauta climática nacional, para fora do cenário “antropogênico” das mudanças climáticas, tende a gerar uma forte oposição dos setores articulados em torno desse cenário, aí incluídos o poderoso movimento ambientalista internacional e grande parcela da mídia, dotados de considerável influência sobre a opinião pública interna e externa.

Não obstante, acreditamos que algumas necessárias correções de rumo sejam factíveis, no sentido de se atribuir uma prioridade maior a certas iniciativas de importância fundamental, tanto na alçada do MCTI como na de outros ministérios (casos nos quais a influência do MCTI poderia ser determinante), para proporcionar uma melhora do conhecimento da dinâmica climática e um aumento da capacidade geral da sociedade para fazer frente aos fenômenos meteorológicos e climáticos. Estamos convencidos de que tais iniciativas representariam aplicações melhores para grande parte dos recursos humanos e financeiros que têm sido equivocadamente orientados para a agenda da “descarbonização”.

Por conseguinte, oferecemos-lhe as considerações a seguir, com a expectativa de que possam aportar subsídios relevantes para a atuação do MCTI nessa área.

1) Não há evidências físicas da influência humana no clima global

Em termos estritamente científicos, a questão climática pode ser sintetizada em um único parágrafo:

As mudanças constituem a característica fundamental do clima, como demonstram as evidências referentes a toda história geológica da Terra – ou seja, o clima está sempre em mudança. Quanto à alegada influência humana no clima global, supostamente atribuída às emissões de compostos de carbono das atividades humanas, com a industrialização e a urbanização, ela teria que, forçosamente, amplificar as taxas de variação (gradientes) das temperaturas atmosféricas e oceânicas e dos níveis do mar, registradas desde a Revolução Industrial do século XVIII. Como não há qualquer evidência de que estas variações sejam anômalas, em relação às registradas anteriormente, no passado histórico e geológico, simplesmente, a propalada influência humana não pode ser comprovada.

Todos os prognósticos que indicam elevações exageradas das temperaturas e dos níveis do mar nas décadas vindouras, além de outros impactos negativos atribuídos ao lançamento de carbono “antropogênico” na atmosfera, baseiam-se em projeções de modelos matemáticos, que constituem apenas simplificações limitadas do sistema climático. Portanto, tais prognósticos não devem ser usados para fundamentar políticas públicas e estratégias de longo alcance, com grandes impactos socioeconômicos, tanto em âmbito nacional como global.

A influência humana no clima restringe-se às áreas urbanas e seus entornos, em situações específicas de calmarias, sendo esses impactos muito localizados e sem influência na escala planetária.

Segundo o quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em 2014, as temperaturas médias globais aumentaram 0,85 °C no período 1880-2012, enquanto o nível médio do mar subiu 0,19 m entre 1901 e 2010.

Na história da Terra há registros de situações bem mais dramáticas. Ao longo do Holoceno, a época geológica correspondente aos últimos 12.000 anos em que a civilização humana se desenvolveu, houve diversos períodos com temperaturas mais altas que as atuais. No Holoceno Médio, há 6.000-8.000 anos, as temperaturas médias chegaram a ser 2 °C a 3 °C superiores às atuais, enquanto os níveis do mar atingiram até 3 metros acima do atual. Igualmente, nos períodos quentes conhecidos como Minoano (1500-1200 a.C.), Romano (séc. III a.C.-V d.C.) e Medieval (séc. X-XIII d.C.), as temperaturas foram mais de 1oC superiores às atuais.

Entre 12.900 e 11.600 anos atrás, no período frio denominado Dryas Recente, as temperaturas atmosféricas caíram cerca de 8 °C em menos de 50 anos e, ao término dele, voltaram a subir na mesma proporção em pouco mais de meio século.

Quanto ao nível do mar, ele subiu cerca de 120 metros, entre 18.000 e 6.000 anos atrás, o que equivale a uma taxa média de 1 metro por século, suficientemente rápida para impactar visualmente as gerações sucessivas das populações que habitavam as margens continentais. No período entre 14.650 e 14.300 anos atrás, há registros de uma elevação ainda mais acelerada, atingindo cerca de 14 metros em apenas 350 anos, média de 4 metros por século.

Ou seja, tais variações representam valores de uma ordem de grandeza superior às observadas desde o século XIX. Por conseguinte, estas últimas se enquadram com muita folga dentro da faixa de oscilações naturais dos parâmetros climáticos e, portanto, não podem ser atribuídas ao uso dos combustíveis fósseis ou a qualquer outro tipo de atividade vinculada ao desenvolvimento humano.

Embora evidências como essas possam ser encontradas em, literalmente, milhares de estudos realizados em todos os continentes por cientistas de dezenas de países, devidamente publicados na literatura científica internacional, é raro que algum destes estudos ganhe repercussão na mídia, quase sempre mais inclinada à promoção de um alarmismo sensacionalista e desorientador.

2) A hipótese “antropogênica” é um desserviço à Ciência e um risco para as políticas públicas

A boa prática científica pressupõe uma correspondência entre hipóteses e dados observados que as comprovem. Como a hipótese das mudanças climáticas “antropogênicas” não se fundamenta em evidências físicas observadas no mundo real, a insistência na sua preservação representa um grande desserviço à Ciência e à sua necessária colocação a serviço do bem estar da humanidade. Apesar de agregar um certo número de cientistas, a construção dessa hipótese passa ao largo da metodologia científica.

A História registra numerosos exemplos dos efeitos nefastos do atrelamento da Ciência a ideologias e outros interesses restritos. O empenho prevalecente na imposição da hipótese “antropogênica” sem as evidências correspondentes tem custado caro à humanidade, em recursos humanos, técnicos e econômicos desperdiçados com um problema inexistente. O Brasil não está alheio a essa situação. Ao contrário, manifesta-se no País um despropositado empenho em colocá-lo em uma questionável posição de “liderança” nas negociações internacionais sobre o clima.

Vale lembrar que países como o Canadá, Japão, Austrália e Rússia, já manifestaram a sua posição contrária em prosseguir pelo caminho da “descarbonização”, de forma a não permitir que uma premissa não comprovável sirva para nortear políticas públicas de tão amplo espectro e de mudanças radicais em suas economias.

Ademais, ao conferir ao dióxido de carbono (CO₂) e outros gases produzidos pelas atividades humanas o papel de principais protagonistas da dinâmica climática, a hipótese “antropogênica” simplifica e distorce processos naturais extremamente complexos, nos quais interagem fatores astrofísicos, atmosféricos, oceânicos, geológicos, geomorfológicos e biológicos, que a Ciência apenas começa a entender em sua abrangência.

Um exemplo dos riscos dessa simplificação para a formulação das políticas públicas relevantes é a possibilidade real de que o período até a década de 2030 experimente um considerável resfriamento da atmosfera, em vez de aquecimento, devido ao efeito combinado de um período de baixa atividade solar (Ciclo 25) e de uma fase de resfriamento do Oceano Pacífico (Oscilação Decadal do Pacífico-ODP), em um cenário semelhante ao observado entre 1947 e 1976. Vale observar que, naquele período, o Brasil experimentou uma redução de 10-30% nas chuvas, o que acarretou problemas de abastecimento de água e geração elétrica, além de um aumento das geadas fortes, que muito contribuíram para erradicar o cultivo do café no oeste do Paraná. Se tais condições se repetirem, no futuro imediato, o País poderá ter sérios problemas, inclusive nas áreas de expansão da fronteira agrícola das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, e na geração hidrelétrica (particularmente, considerando a proliferação de reservatórios “a fio d’água”, impostos pelas restrições ambientais). E, embora sejam necessários estudos aprofundados para comprová-la, não pode ser descartada a possibilidade de a atual seca que atinge o Sudeste estar relacionada a um novo estado climático semelhante ao de 1947-1976.

Além disso, a obsessão com o CO₂ desvia as atenções das emergências e prioridades ambientais reais, cuja solução requer iniciativas e investimentos públicos. Um exemplo é a indisponibilidade de sistemas de saneamento básico para mais da metade da população mundial, cujas consequências constituem, de longe, o principal problema ambiental do planeta – e do próprio Brasil, onde os números são semelhantes. Outro é a falta de acesso à eletricidade, que atinge mais de 1,5 bilhão de pessoas, principalmente na Ásia, África e América Latina.

A propósito, o decantado limite de 2 °C para a elevação das temperaturas sobre os níveis pré-industriais, que, supostamente, não poderia ser superado e tem justificado todas as restrições propostas para os combustíveis fósseis, em âmbito internacional, também não tem qualquer base científica. Trata-se de uma criação “política” do físico Hans-Joachim Schellnhuber, diretor do Instituto Potsdam para a Pesquisa de Impactos Climáticos (PIK) e assessor científico do governo alemão, como admitido por ele próprio, em uma entrevista à revista Der Spiegel (publicada em 17/10/2010).

3) Prioridades reais: melhor conhecimento da dinâmica climática e maior resiliência da sociedade

Em lugar do alarmismo sobre o aquecimento global e da pseudopanaceia do “baixo carbono”, a política setorial brasileira teria muito a ganhar com uma reorientação de prioridades, que favoreça: a) um melhor conhecimento da dinâmica climática, com ênfase nos estudos paleoclimáticos do território brasileiro; e b) um aumento da resiliência da sociedade para fazer frente aos eventos meteorológicos extremos e a quaisquer tendências climáticas que se manifestem no futuro.

O estudo das mudanças climáticas do passado histórico e geológico (paleoclimas) constitui a base mais sólida para o entendimento da dinâmica climática e as suas projeções para o futuro. Uma atenção especial deve ser dada ao período Quaternário (os últimos 2,6 milhões de anos), no qual o gênero Homo surgiu e tem evoluído. Dentro do Quaternário, os últimos 800 mil anos têm sido marcados por uma sucessão de ciclos glaciais (mais frios), com duração média de 90-100 mil anos, e interglaciais (mais quentes), com duração média de 10-12 mil anos. Atualmente, o planeta se encontra em uma fase interglacial, que teve início há cerca de 11.600 anos, dentro da qual toda a civilização humana tem se desenvolvido. De forma significativa, pelo menos os três interglaciais anteriores foram mais quentes que o atual, e não há qualquer evidência de que este possa deixar de ser sucedido por uma nova glaciação. A explicação mais aceita sobre os fatores causadores dessa dinâmica se baseia em alterações de parâmetros orbitais terrestres que variam ciclicamente, como mudanças na inclinação do eixo de rotação e na forma da órbita terrestre ao redor do Sol. Portanto, é evidente que o homem é incapaz de causar qualquer ínfima influência nos fatores e forças cósmicas que a regem.

No Brasil, os estudos do Quaternário, apesar de importantes e da existência de um número razoável de instituições de pesquisa e pesquisadores dedicados a eles, ainda são esparsos e insuficientes para permitir a configuração de um quadro paleoclimático do território nacional e do seu entorno continental, com a profundidade necessária para subsidiar um modelo consistente de mudanças climáticas a ser definido para o País, que possa proporcionar dados relevantes para subsidiar um modelo global. Portanto, esta é uma lacuna que precisa ser devidamente considerada, na formulação da política climática nacional, em que o MCTI poderia atuar em consonância com os órgãos específicos do Ministério de Minas e Energia (MME).

Quanto à resiliência, esta pode ser entendida como a flexibilidade das condições físicas de sobrevivência e funcionamento da sociedade, além da sua capacidade de resposta às emergências, permitindo-lhe reduzir a sua vulnerabilidade aos fenômenos meteorológicos extremos, às oscilações climáticas e a outros fenômenos naturais potencialmente perigosos que já ocorreram no passado e certamente ocorrerão no futuro.

Neste aspecto, destacamos dois conjuntos de fatores, dentro da alçada direta do MCTI:
a) um aprimoramento da capacidade de previsão meteorológica nacional;
b) estímulo de pesquisas referentes às seguranças alimentícia e hídrica, assim como a novas fontes energéticas, que contribuam para reduzir a vulnerabilidade da sociedade às adversidades climáticas.

No primeiro item, uma iniciativa primordial seria tirar do papel o projeto de um satélite meteorológico próprio, imprescindível para um país que ocupa a metade da América do Sul e tem a responsabilidade de distribuir informações meteorológicas sobre grande parte do Oceano Atlântico Sul (a chamada METAREA-V), nos termos da Convenção Internacional para a Salvaguarda da Vida Humana no Mar (SOLAS). Na edição de 2012 do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE), o satélite está previsto para 2018, mas os atrasos recorrentes do programa tornam tal prazo improvável, além de imprevisível.

Outros exemplos poderiam incluir:
• a ampliação e melhor distribuição territorial da rede de estações meteorológicas, inferior aos padrões recomendados pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) para um território com as dimensões do brasileiro, com ênfase especial no trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET);
• o aumento do número de radares meteorológicos e a sua interligação aos sistemas de defesa civil;
• a aceleração da consolidação da base nacional de dados meteorológicos, boa parte dos quais ainda não foi digitalizada;
• o estabelecimento de uma rede efetiva de divulgação de dados meteorológicos e oceanográficos para a METAREA-V.

No segundo item, poderíamos destacar:
• a ampliação das pesquisas com sementes geneticamente modificadas para todo tipo de condições climáticas, em curso na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e outras instituições do gênero;
• o estabelecimento de linhas de pesquisa de novas fontes energéticas não-renováveis, como o uso de tório em reatores nucleares, e fontes baseadas em novos princípios físicos, como magnetohidrodinâmica, reações nucleares quimicamente assistidas (a chamada “fusão a frio”), energia do vácuo quântico e outras, que têm sido contempladas no exterior, mas são praticamente ignoradas no País;
• dentre as energias renováveis, a geração de bioenergia, como maior eficiência na queima de resíduos vegetais, etanol de segunda geração e óleos de palmáceas nativas (OVP), muito abundantes no País, e que podem ser queimados diretamente em motores diesel convencionais sem necessidade de modificação dos motores ou dos óleos vegetais.

Para tais pesquisas energéticas, o Brasil dispõe dos necessários recursos humanos qualificados, distribuídos entre centros de pesquisa acadêmicos, de empresas estatais (Cenpes, Cepel etc.), militares (IME, CTA, CTEx, IPqM) e um número considerável de empresas privadas de tecnologia.

Todas essas iniciativas poderiam se beneficiar com a disponibilidade de parte dos recursos financeiros que têm sido alocados a programas vinculados às mudanças climáticas, segundo o enfoque equivocado da redução das emissões de carbono (como muitos dos projetos contemplados no âmbito do chamado Fundo Clima, gerido pelo MCTI e o Ministério do Meio Ambiente, MMA).

Um grupo adicional de iniciativas relevantes para a “resiliência climática” envolve a infraestrutura física, em especial, a capacidade de armazenamento de alimentos, infraestrutura de transportes, energia e comunicações, além de outros tópicos, não diretamente na alçada do MTCI, mas potencialmente influenciados pelas diretrizes e programas do Ministério.

Em síntese, o caminho mais racional e eficiente para aumentar a resiliência da sociedade, diante das mudanças climáticas inevitáveis – aquecimento ou resfriamento –, é a elevação geral dos seus níveis de desenvolvimento humano e progresso aos patamares permitidos pela Ciência e pelo avanço do conhecimento e o processo de inovação.

4) A “descarbonização” é desnecessária e deletéria

Uma vez que as emissões “antropogênicas” de carbono não provocam impactos verificáveis no clima global, toda a agenda da “descarbonização” ou “economia de baixo carbono” se torna desnecessária e contraproducente – sendo, na verdade, uma pseudo-solução para um problema inexistente, pelo menos no tocante ao clima (programas de incentivo à mobilidade urbana, inclusos no Fundo Clima, por exemplo, se justificam por si próprios). A insistência na sua preservação, por força da inércia do status quo, não implicará em qualquer efeito sobre o clima, mas tenderá a aprofundar os numerosos impactos negativos de tais diretrizes.

O principal deles é o encarecimento desnecessário de uma série de atividades econômicas, em razão de:
• os subsídios concedidos à exploração de fontes energéticas de baixa eficiência, como a eólica e solar, já em retração na União Europeia (UE), que investiu fortemente nelas;
• a imposição de cotas e taxas vinculadas às emissões de carbono, como fez a UE para viabilizar o seu mercado de créditos de carbono, e a Austrália, onde a grande rejeição popular à taxa imposta levou o atual governo do país a retirá-las;
• a imposição a várias atividades econômicas de medidas de captura e sequestro de carbono (CCS), totalmente inúteis sob o ponto de vista climático e de saúde pública, uma vez que o CO₂ não é um gás tóxico e poluente.

Os principais beneficiários de tais medidas têm sido os especuladores, fornecedores de equipamentos e serviços de CCS e participantes dos intrinsecamente inúteis mercados de carbono, que não têm qualquer fundamento econômico real e se sustentam tão-somente em uma demanda artificial criada a partir de uma necessidade inexistente.

5) No futuro, menos alarmismo e mais Ciência e bom senso

Pela primeira vez na História, a humanidade detém um acervo de conhecimentos e recursos físicos, técnicos e humanos, para prover a virtual totalidade das necessidades materiais de uma população ainda maior que a atual. Esta perspectiva viabiliza a possibilidade de se universalizar – de uma forma inteiramente sustentável – os níveis gerais de bem estar usufruídos pelos países mais avançados, em termos de infraestrutura de água, saneamento, energia, transportes, comunicações, serviços de saúde e educação e outras conquistas da vida civilizada moderna. A despeito dos falaciosos argumentos contrários a tal perspectiva, os principais obstáculos à sua concretização, em menos de duas gerações, são mentais e políticos, e não físicos e ambientais.

Aproveitamos o ensejo para lhe desejar sucesso em sua gestão, esperando que ela contribua de forma decisiva para consolidar na sociedade brasileira a conscientização do papel estratégico do conhecimento e da inovação para o desenvolvimento socioeconômico do País. E, da mesma forma, esperamos que ela sinalize uma inflexão determinante para que, em um futuro próximo, a agenda climática nacional venha a ser posicionada, definitivamente, no terreno sólido das evidências científicas reais e do bom senso.

Kenitiro Suguio
Geólogo, Doutor e Livre-docente em Geologia
Professor Emérito do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP)
Membro titular da Academia Brasileira de Ciências

Luiz Carlos Baldicero Molion
Físico, Doutor em Meteorologia e Pós-doutor em Hidrologia de Florestas
Pesquisador Sênior (aposentado) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)
Professor Associado (aposentado) da Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

José Carlos Parente de Oliveira
Físico, Doutor em Física e Pós-doutor em Física da Atmosfera
Professor Associado (aposentado) da Universidade Federal do Ceará (UFC)
Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE)

Fernando de Mello Gomide
Físico, Professor Titular (aposentado) do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA)
Co-autor do livro Philosophy of Science: Brief History (Amazon Books, 2010, com Marcelo Samuel Berman)

José Bueno Conti
Geógrafo, Doutor em Geografia Física e Livre-docente em Climatologia
Professor Titular do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP)

Francisco Arthur Silva Vecchia
Engenheiro de Produção, Mestre em Arquitetura e Doutor em Geografia
Professor Associado do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC–USP)
Diretor do Centro de Ciências da Engenharia Aplicadas ao Meio Ambiente (CCEAMA) da EESC–USP

Gildo Magalhães dos Santos Filho
Engenheiro eletrônico, Doutor em História Social e Livre-docente em História da Ciência e Tecnologia
Professor Associado do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP)

Lucia Helena Tavares Viegas
Engenheira Química, Mestra em Administração de Empresas e Doutora em Gestão e Inovação Tecnológica

Paulo Cesar Soares
Geólogo, Doutor em Ciências Geológicas e Livre-docente em Estratigrafia
Professor Titular da Universidade Federal do Paraná (UFPR)

Marco Antonio Sacilotti
Físico, Mestre em Física Aplicada e Doutor em Engenharia Elétrica
Professor das universidades UFR-Sciences et Tecnhologies/Université de Bourgogne (França)
Professor Visitante do Departamento de Física da Universidade Federal de Pernambuco (DF-UFPE)

Ricardo Augusto Felicio
Meteorologista, Mestre e Doutor em Climatologia
Professor do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP)

Fulvio Cupolillo
Geógrafo, Mestre em Meteorologia Agrícola e Doutor em Geografia
Professor Titular do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG)

Gustavo Macedo de Mello Baptista
Geógrafo, Mestre em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos e Doutor em Geologia
Diretor do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares da Universidade de Brasília (UnB)
Autor do livro Aquecimento Global: ciência ou religião? (Hinterlândia, 2009)

João Bosco A. de Morais
Geólogo, Mestre em Hidrogeologia e Doutorando em Vulnerabilidade de Aquíferos na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
Assessor para Meio Ambiente do Governo do Estado do Ceará

Cássio Roberto da Silva
Geólogo, Especialista em Geologia Ambiental, Mestre em Geologia Econômica e Doutor em Geologia Médica
Pesquisador em Geociências (Sênior) e chefe do Departamento de Gestão Territorial do Serviço Geológico do Brasil – CPRM

Ricardo Moacyr de Vasconcellos
Engenheiro de Minas, Especialista em Geofísica
Pesquisador em Geociências (Sênior) do Serviço Geológico do Brasil – CPRM

Paulo Cesar Martins Pereira de Azevedo Branco
Geólogo
Pesquisador em Geociências (Sênior) do Serviço Geológico do Brasil – CPRM

Maria Angélica Barreto Ramos
Geóloga, Mestra em Geociências
Pesquisadora em Geociências (Sênior) do Serviço Geológico do Brasil – CPRM

Ginaldo Caldas Raymundo
Geólogo, Mestre em Geologia de Engenharia
(Empresa privada de engenharia consultiva)

Daniela de Souza Onça
Geógrafa, Mestra e Doutora em Climatologia
Professora da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC)

Gustavo Zen de Figueiredo Neves
Geógrafo, Mestre em Ciências da Engenharia Ambiental
Professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG)

Marcos José de Oliveira
Engenheiro Ambiental, Mestre e Doutorando em Ciências da Engenharia Ambiental na Universidade de São Paulo (USP)

Elis Dener Lima Alves
Geógrafo, Mestre em Física Ambiental e Doutorando em Ciências da Engenharia Ambiental na Universidade de São Paulo (USP)

Igor Vaz Maquieira
Biólogo, Especialista em Gestão Ambiental

Geraldo Luís Saraiva Lino
Geólogo
Coeditor do sítio Alerta em Rede
Autor do livro A fraude do aquecimento global: como um fenômeno natural foi convertido numa falsa emergência mundial (Capax Dei, 2009)

Carlos Eduardo Osório Ferreira
Mestre em Geologia de Engenharia e Ambiental UFRJ
Pesquisador em Geociências (sênior)do Serviço Geológico do Brasil

Sandra Fernandes da Silva
Geóloga, Especialista em Risco Geológico e Doutora em Geotecnia
Pesquisadora em Geociências do Serviço Geológico do Brasil – CPRM

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2014 não foi o ano mais quente

De acordo com a NASA e a NOAA, 2014 foi o ano mais quente desde 1880, segundo as medições e as séries de dados delas, de termômetros em estações meteorológicas. Não precisa procurar muito para descobrir que essas medições tem sido muito questionadas, que os “recordes” estabelecidos recentemente – segundo as citadas fontes – foram devido a diferenças estatisticamente insignificantes, na casa dos centésimos de graus Celsius, etc..

O que se pode afirmar é que dados cuidadosamente escolhidos, “ajustados” e bem massageados acabam produzindo os resultados esperados.

Os dados dos satélites, por exemplo, entre tantos outros, não confirmam isso. Mostro a seguir um gráfico das variações da superfície total de gelo sobre os oceanos da Terra, em valores absolutos e anomalias (desvios em relação à média). Clique sobre o gráfico para vê-lo com todos os detalhes. Se é que 2014 foi o ano mais quente, como as anomalias se mantiveram acima da média?!

Global Sea Ice Area

Fonte do gráfico: The Cryosphere Today

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Desertos mais verdes pelo aumento do CO₂

O aumento dos níveis de dióxido de carbono (CO₂) tem ajudado a impulsionar a vegetação em todas as regiões áridas do mundo nos últimos 30 anos, através de um processo chamado de fertilização de CO₂, de acordo com pesquisa da Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation, CSIRO.

Baseada em observações de satélite, a CSIRO, em colaboração com a Universidade Nacional da Austrália (ANU), concluiu que essa fertilização de CO₂ está correlacionada com um aumento de 11% na cobertura vegetal, no período de 1982 a 2010, em partes das zonas áridas estudadas (Austrália, América do Norte, Oriente Médio e África), de acordo com o Dr. Randall Donohue, pesquisador da CSIRO.

“Na Austrália, a vegetação nativa está soberbamente adaptada para sobreviver em ambientes áridos e, consequentemente, utiliza a água de forma muito eficiente”, disse o Dr. Donohue. “A vegetação australiana parece bastante sensível à fertilização de CO₂”.

“Isto, junto com as vastas extensões de paisagens áridas, fez com que a Austrália se destacasse em nossos resultados”.

“Nosso trabalho foi capaz de demonstrar o efeito da fertilização de CO₂ utilizando modelagem matemática em conjunto com dados de satélite ajustados para tirar os efeitos observados de outras influências, tais como precipitação, temperatura do ar, quantidade de luz e uso da terra”.

O efeito de fertilização pelo incremento de CO₂ permite que uma folha, durante a fotossíntese (o processo pelo qual as plantas convertem a luz solar em açúcares), extraia mais carbono do ar ou perca menos água para o ar, ou ambos.

Se o incremento de CO₂ faz com que o uso da água na folhagem da vegetação seja mais eficiente, as plantas em ambientes áridos respondem aumentando o seu número total de folhas e tornam-se mais vigorosas. Essas mudanças na cobertura de folhas podem ser detectadas por satélite, especialmente nos desertos e nas savanas, onde a cobertura é menos completa do que em locais úmidos, de acordo com o Dr. Donohue.

Uma imagem vale mais que mil palavras. Para ver a imagem a seguir em alta resolução, clique sobre a própria imagem.

Global greening

Este estudo foi publicado na revista US Geophysical Research Letters e foi financiado pelas áreas de Agricultura Sustentável e de Água para um País Saudável da CSIRO, pelo Conselho Australiano de Pesquisas e por Land & Water Australia.

O post acima é uma tradução livre de publicação da CSIRO. Para ver a original, clique aqui

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Thanksgiving

Hoje é o Dia de Ação de Graças nos EUA, e o clima por lá não se parece nem um pouco com essa pintura da primeira celebração. O inverno já começou por lá, e com força total. Temperaturas congelantes e muita neve chegaram mais cedo e assolam boa parte da América do Norte, como não se via há décadas.

The First Thanksgiving, Jean Louis Gerome Ferris

A temporada de transportes na parte superior do rio Mississippi encerrou-se em 20 de novembro, algo que nunca se viu desde que os registros foram iniciados em 1969.

Nesse mês, áreas no Estado de Michigan e a oeste no Estado de Nova York já estão com mais 2 metros de neve acumulada, paralisando o tráfego e causando o colapso de telhados de vários edifícios pelo peso da neve.

Nesse ano, um dia depois do Dia do Trabalho (1ª segunda-feira de setembro, nos EUA), a neve já atingiu a cidade de Barrow, no Alasca, numa das primeiras nevascas significativas na memória recente.

Houve até mesmo neve em Chicago no dia de Halloween (31 de outubro), a primeira queda de neve apreciável naquela noite assustadora desde 1993, e o aeroporto O’Hare de Chicago teve que cancelar mais de 700 voos. Falando de Chicago, a cidade e os arredores já estão relatando até cinco mortes pelas temperaturas congelantes.

Halloween anunciava um novembro que trouxe grandes tempestades de neve e de gelo nos EUA, a partir do noroeste e em direção a leste, para Minnesota e Illinois, e ainda trouxe atipicamente baixas temperaturas e chuvas de gelo até o sul de Nashville, no Tennessee.

A neve pesada em boa parte do Centro-Oeste e do Norte nos EUA causa problemas para os viajantes no Dia de Ação de Graças lá. E a tempestade de inverno Cato está perturbando e rede elétrica e dificultando viagens em toda a Costa Leste dos EUA neste ano.

E tudo isso ocorre por culpa do aquecimento global, dirão por aí…

Nessa noite, vai ter perú e torta de abóbora na casa da minha irmã, minha mãe acostumou a família a celebrar o Dia de Ação de Graças. Happy Thanksgiving!

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Desmatamento na Amazônia e as secas no Sudeste

A afirmação de que as secas da Região Sudeste estão sendo causadas pelo desmatamento da Amazônia é leviana, não tem base científica, pois não sobrevive a uma análise de dados climáticos, além de ser contrária ao bom senso. A anomalia climática pela qual São Paulo está passando é decorrente da variabilidade natural do clima e já ocorreu, até com intensidade maior, no passado. O gráfico abaixo representa a variação dos desvios de precipitação padronizados para a Estação da Luz, no centro da capital paulista, que tem dados observados de chuva desde 1888. Nesse gráfico, notam-se desvios fortemente negativos em anos como 1933 e 1936, e na década dos anos 1960, como 1963, 1968 e 1969. Séries de precipitação mais curtas, a partir dos anos 1950, também registram as secas da década de 1960 que afetou a Região Sudeste. Ou seja, a Região já esteve submetida a secas severas no passado quando o desmatamento da Amazônia era incipiente.

Chuvas - Estação da Luz

A floresta está lá porque as condições climáticas globais, notadamente o transporte de umidade vindo do Oceano Atlântico Norte, criam as condições propícias para que ela exista. É claro que, após a instalação da floresta, há complexos mecanismos de interação floresta-atmosfera que tornam o clima local mais úmido. Antes do soerguimento dos Andes a 70 milhões de anos atrás, a floresta não existia como ela é vista hoje. E no pico da última era glacial, há 15 mil anos, há evidências que também não existia uma floresta extensa e contínua, mas apenas algumas “ilhas de vegetação” ou “refúgios” na denominação de Aziz Ab’Saber e Paulo Vanzolini. Portanto, é o clima global atual que permite a existência da floresta extensa e contínua, como observada modernamente, e não o contrário!

A umidade para as chuvas do Sudeste não é produzida na Amazônia. Ela vem do Oceano Atlântico Norte e, notem, apenas passa sobre a Amazônia e interage com a floresta. Como essa floresta produz atrito ao escoamento do ar que sai do oceano [como um carrinho elétrico que passa da cerâmica (superfície lisa) para cima de um tapete (superfície rugoso)], essa rugosidade cria intensa turbulência vertical e nuvens convectivas que convertem mais eficientemente parte da umidade transportada pelos ventos em chuva. O restante do fluxo de umidade oceânica segue seu caminho para fora da Região. Afirmação que “uma árvore cuja copa tenha 10 metros de raio, fornece mil litros de água por dia para a atmosfera”, tem o objetivo de sensibilizar o público leigo e usa, de forma inadvertida, resultados, por exemplo, obtidos no Experimento Micrometeorológico na Amazônia (ARME), organizado e dirigido por nós na década dos anos 1980 na Amazônia Central próximo a Manaus. No ARME, concluímos que a evapotranspiração [evaporação + transpiração da vegetação] injetava na atmosfera 3,4 mm por dia, ou 3,4 litros de água por metro quadrado por dia [l/m2/d], um número bem inferior ao que era tido como verdadeiro na época. Ora, um círculo de 10 metros de raio possui uma área de cerca de 300 metros quadrados que, multiplicada pela taxa de evapotranspiração acima, de 3,4 l/m2/d, resulta em 1000 litros por dia. A pergunta que cabe aqui é de onde essa tal árvore retirou a umidade que está transferindo para a atmosfera? E a resposta óbvia é “a umidade foi retirada da chuva que se infiltrou no solo”. Sabe-se que 98% a 99% da umidade que a vegetação retira do solo são utilizados apenas para manter baixa a temperatura de sua folhagem por meio do processo físico de vaporização da água, que consome grandes quantidades de energia solar e refrigera a folhagem. Se a evaporação não ocorresse, a temperatura da folhagem poderia atingir valores superiores a 34-35 °C e danificaria os tecidos da folhagem severamente, ou seja, a floreta não sobreviveria. Portanto, apenas 1% a 2% da água retirada do solo ficam incorporados nas árvores. A floresta não é fonte de umidade, ela é apenas um transdutor da água da chuva, que é derivada do fluxo de umidade oceânica transportado pelos ventos para dentro do continente. A floresta recicla 98% a 99% da água da chuva, devolvendo-a para o escoamento atmosférico que a transporta para outras regiões do país. Na eventual hipótese absurda de se desmatar completamente a Amazônia, a rugosidade da floresta deixaria de existir, choveria menos na Amazônia e, pode se dizer, um fluxo de umidade um pouquinho maior do que o atual seria transportado para o Sudeste, possivelmente aumentando suas chuvas.

É fato observado e incontestável que áreas dentro da própria Amazônia e ao sul da mesma apresentam uma estação seca bem definida ao longo do ano. No Centro Oeste e Sudeste, por exemplo, a estação seca chega a ser de seis meses, notadamente entre abril e setembro. Por que não chove nessas regiões se a floresta está em pleno funcionamento e transferindo umidade para o ar? É porque o clima global não permite a umidade existente na superfície seja convertida em chuva regionalmente. Durante a estação seca, e em anos de seca, essas regiões estão sobre o domínio de um sistema de alta pressão atmosférica de milhares de quilômetros de extensão e a inversão térmica associada a ele e existente a cerca de 2 km de altura, inibe a formação e o desenvolvimento de nuvens de chuva. Além do ciclo anual, o clima do Brasil apresenta variabilidade interanual decorrente de fenômenos de escala global como os eventos El Niño que, afirma-se, produzem secas severas sobre a Amazônia, mesmo com toda umidade que, em princípio, seria fornecida pela floresta. Em adição, existe uma variabilidade climática na escala decadal resultante da variabilidade da temperatura da superfície (TSM) dos Oceanos Pacífico e Atlântico que, juntos, ocupam 54% da superfície do planeta. Durante o período que o Pacífico Tropical ficou, em média, ligeiramente mais frio, entre 1946 e 1976, chovia 10% a 20% a menos no país de maneira geral. Isso porque a atmosfera [e, como consequência, o clima] é aquecida por baixo, o ar se aquece em contato com a superfície. Se as TSM ficam mais frias, o clima também se resfria, a evaporação dos oceanos se reduz, o transporte do fluxo de umidade para cima dos continentes é diminuído e uma atmosfera mais fria e mais seca produz menos chuva na região tropical. A partir de 1999, o Pacífico começou a se resfriar e o estado energético do clima parece estar semelhante ao do período 1946-1976 quando o Pacífico se resfriou e, portanto, mais baixo que o do período 1976-1998 recém-passado, em que o pacífico estava mais aquecido e o estado energético do clima era mais elevado e chovia mais. Admitindo que o ciclo de resfriamento/aquecimento do Pacífico seja de 50-60 anos, conforme publicado na literatura especializada, o Pacífico deve permanecer, em média, ligeiramente mais frio até os anos 2025-2030. Sob considerações meramente baseadas na dinâmica do clima global observada ao longo dos últimos 100 anos, se este se assemelhar ao período frio passado [1946-1976], as chuvas devem se reduzir em todo país, notadamente no Sudeste e Centro Oeste, independentemente de se acabar com o desmatamento e recuperar as áreas degradadas na Amazônia. Não queremos dizer, com isso, que somos favoráveis ao desmatamento na Amazônia. Muito pelo contrário, somos contra o desmatamento da Amazônia, em função da fantástica biodiversidade nela existente e dos serviços ambientais por ela prestados à sociedade. E os produtores rurais da Amazônia tem plena consciência disso.

Luiz Carlos Baldicero Molion, PhD

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Caterva de ignorantes

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) publicou ontem no YouTube um trailer de menos de dois minutos com a síntese do seu 5º relatório de avaliação (AR5).

“A influência humana no sistema climático é clara, e se quisermos limitar as mudanças climáticas, precisamos reduzir a emissão dos gases de efeito estufa de maneira substancial e sustentável”.

De acordo com a cartilha de Goebbels: mensagem simples e objetiva. Mentira que, repetida inúmeras vezes, torna-se verdade…

Começando pelo começo, não há nada claro em relação à influência das atividades humanas no sistema climático, senão o contrário. E a influência do Sol? E a influência das nuvens? E a interação entre esses dois fatores, e todos os demais? Ninguém, em sã consciência, deveria acreditar numa afirmação tão simplista quando se trata de um sistema tão complexo como o climático. E, no entanto, o que se vê é que a receita de Goebbels funciona…

A previsão do tempo não acerta como se comportará o tempo depois de amanhã, e pretendem vaticinar como será daqui a 20, 50 ou 100 anos? Uma piada! Os modelos climáticos em computador, da forma como têm sido manipulados, são um desperdício, brincadeira cara e inútil, pois o que se verifica é bem diferente do que já foi previsto. A variabilidade natural do tempo é enorme, e o que estamos observando não é extraordinário.

O problema não está bem definido – pode ser que ele nem exista – e a solução proposta é a redução das emissões dos gases de efeito estufa, principalmente representados pelo dióxido de carbono, CO₂. Mais Goebbels. Convém lembrar, porém, que o Sol, a água e o CO₂ são essenciais para a fotossíntese e para a vida – tal e como a conhecemos – no planeta Terra. O CO₂ não é um poluente!

O planeta Terra está se tornando cada vez mais verde, fenômeno que tem sido chamado de “global greening”. Mais CO₂ na atmosfera da Terra tem sido um benefício para a vida em geral. As incertezas sobre a quantificação das emissões naturais de CO₂ são maiores que as emissões estimadas decorrentes da atividade humana, o erro é maior que a medida.

A foto abaixo, extraída do referido vídeo, é a constatação de que estão tentando enganar os incautos. O que se vê nessa foto?

Nuclear power plant at nightBem, para os que não sabem, trata-se de uma central nuclear de geração de energia elétrica, e as três torres que se vê são de refrigeração e condensação de vapor da planta geradora, e as colunas de fumaça branca que se vê saindo das torres são de vapor de água… Uma planta nuclear não emite CO₂. A intenção ao usar a imagem é que é clara: impactar a massa. Caterva de ignorantes…

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Responsável pelo blog

Mario de Carvalho Fontes Neto, engenheiro agrônomo


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