Advertência sobre o “consenso” do IPCC: use por sua conta e risco

As conclusões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) são muitas vezes apontadas como representando “o consenso dos cientistas”, uma reivindicação muito grandiosa e presunçosa. Algumas, nos últimos dias, semanas e meses, tem sido desmentidas. Deve-se, portanto, revisar as avaliações secundárias que se baseiam nas conclusões do IPCC, a mais notável das quais é a de Aviso de Perigo (Endangerment) da Agência de Proteção Ambiental norteamericana (EPA), que diz que “os gases de efeito estufa em conjunto tornaram-se um risco tanto à saúde pública quanto aos bens públicos, para a atual e para as futuras gerações”.

Os acontecimentos recentes demonstraram, às vezes vergonhosamente, que o IPCC não é “o” consenso dos cientistas, mas sim a opinião de alguns poucos cientistas (em alguns casos, tão poucos quanto apenas um), em diversas áreas disciplinares, cujo consenso entre eles é, então, alinhavado por costureiros de um produto final do IPCC, que, a priori, sabe o resultado final que quer: que os gases de efeito estufa sejam considerados os responsáveis pelas perigosas mudanças climáticas e que as suas emissões precisam ser restringidas. Então, você pode ver claramente por que a EPA (que tem um objetivo similar) decide que confia nos resultados do IPCC, em vez de realizar uma avaliação independente da ciência com o mesmo resultado predeterminado. Por que fazer um esforço extra para chegar à mesma conclusão?

A justificativa oficial da EPA para sua confiança nos resultados do IPCC é que eles revisaram os “procedimentos” do IPCC e os acharam exemplares.

A seguir, vamos dar uma olhada em algumas “pérolas” reveladas recentemente que os “procedimentos” do IPCC têm produzido. Estas revelações recentes indicam que os “procedimentos” são questionáveis e que muitos dos resultados divulgados pelo IPCC estão errados ou são injustificados, mas têm um efeito moto-perpétuo, como se o IPCC permanecesse uma fonte confiável de informação. Confiabilidade questionável não significa que o IPCC errou em todos os casos. Você mente, mas é difícil saber onde e quando os erros estão presentes e, como tal, a justificativa de que “o IPCC disse isso” já não é suficiente (ou aceitável).

As geleiras do Himalaia

O IPCC já admitiu que, em pelo menos uma área, os seus “procedimentos” falharam:

… No entanto, chegou recentemente ao nosso conhecimento que um parágrafo na página 938 do Grupo de Trabalho II contribuiu para uma avaliação subjacente que se refere a estimativas mal fundamentadas da taxa de redução e da data estimada para o desaparecimento das geleiras do Himalaia. Na elaboração do parágrafo em questão, os claros e bem estabelecidos padrões de evidências, exigidos pelos procedimentos do IPCC, não foram aplicados corretamente.

O Presidente, Vice-Presidentes, e Co-Presidentes do IPCC lamentaram a má aplicação dos procedimentos bem estabelecidos do IPCC neste caso. Este episódio demonstra que a qualidade da avaliação depende da adesão absoluta às normas do IPCC, incluindo a revisão completa da “qualidade e validade de cada fonte, antes de incorporar seus resultados em um relatório do IPCC”. Reafirmamos nosso firme compromisso de garantir este nível de desempenho.

Acontece que, neste caso das geleiras do Himalaia (aparentemente o tópico favorito do Chefão do IPCC, Dr. Rajendra Pachauri, para angariar fundos para uma organização sem fins lucrativos que ele dirige), as conclusões do IPCC, de que as geleiras desapareceriam em grande parte lá pelo ano 2035 (colocando em perigo o abastecimento de água de centenas de milhões de pessoas, bem como levando a um aumento das avalanches e de deslizamentos de terra), como resultado do aquecimento global causado pela atividade humana – aparentemente foram baseadas em algumas observações feitas por um pesquisador para a imprensa. Essas declarações foram posteriormente incluídas em um relatório do World Wildlife Fund (WWF), que foi a fonte citada pelo IPCC.

O Dr. Pachauri negou veementemente as acusações de maus procedimentos quando foram feitas, chegando até a chamar as provas das acusações de “ciência vodu“. Agora, com a admissão do IPCC de seus erros, espera-se um pedido de desculpas do Dr. Pauchari em função das suas declarações.

A última fofoca sobre esta questão é que várias pessoas no IPCC sabiam desses problemas há algum tempo, mas elas permitiram sua perpetuação, de qualquer forma. E que tentativas de outros cientistas de corrigir esses problemas do IPCC acabaram se perdendo na correspondência.

Isto não é lá tão importante assim como para comprometer os “procedimentos”.

Atribuição do aumento de danos ao aumento das temperaturas

Outra questão que tem despertado a atenção do IPCC nos últimos dias tem sido a sua atribuição do aumento das perdas relacionadas aos fenômenos climáticos e ao aumento das temperaturas devido às atividades humanas. Neste caso, o IPCC decidiu emitir uma declaração em que negou que os seus “procedimentos” se equivocaram, apesar das claras e crescentes evidências do contrário. Tal negação, em face das crescentes evidências, parece que poderia fazer ainda mais do que realmente admitir outra patetice (mas então, novamente, quantas mancadas grandes o IPCC pode realmente admitir, sem ter de se desfazer da coisa toda?).

Os problemas contidos na avaliação do IPCC têm sido bem documentados por uma série de posts de Roger Pielke Jr. em seu blog (aqui, aqui, aqui e aqui). Pielke Jr. analisa um caso bastante convincente em que o IPCC deu pouca atenção ao seu corpo de revisão da literatura, que concluiu que uma relação clara entre o aumento dos níveis de danos relacionados aos eventos climáticos e às temperaturas em elevação ainda não foi comprovada. O efeito do rápido crescimento de fatores demográficos, tais como população, riqueza, e etc., supera a influência dos fenômenos climáticos e confunde as questões de atribuição. No entanto, de alguma forma, a avaliação do IPCC estabeleceu que as perdas são crescentes e ligadas ao aumento das temperaturas. Pielke Jr. mostra que este não é um caso de “simples revisão” de um estudo “pinçado” de um “workshop”. O Dr. Pielke Jr. fala sobre a recente declaração do IPCC, ao defender os seus resultados e a sua alegação de que “na redação, na revisão e na edição desta seção, os procedimentos do IPCC foram seguidos cuidadosamente para produzir uma avaliação da política, que é o mandato do IPCC”.

Procedimentos cuidadosamente seguidos? Vamos analisar: (a) O IPCC se baseou em uma fonte não publicada e não revisada para produzir suas principais conclusões nesta seção, (b) quando pelo menos dois revisores reclamaram sobre esta seção, o IPCC ignorou as suas queixas e inventou uma resposta, caracterizando-as como opinião particular, (c) quando os documentos desta seção foram finalmente publicados, explicitamente afirmavam que não puderam encontrar uma correlação entre o aumento das temperaturas e os custos dos desastres.

Pielke Jr. continua:

O comunicado de imprensa do IPCC teria sido uma boa oportunidade para alinhar os registros científicos e processuais, e admitir que são óbvios e graves os erros de conteúdo e processo. Em vez disso, decidiu-se defender o indefensável, coisa que qualquer observador facilmente pode ver. Claro que não existe aqui nenhuma possibilidade de recurso sobre como o IPCC é irresponsável, e não há maneira formal para resolver os erros no seu relatório, ou os seus erros e a má administração, via comunicado de imprensa. O IPCC não saiu muito bem na foto.

Basicamente, em relação a esta questão, “o consenso dos cientistas” do IPCC não é o consenso dos cientistas estudando ativamente o assunto, mas reflete apenas o pensamento dirigido de um ou dois autores de um capítulo e, sem dúvida, dos costureiros do IPCC, também.

Período Quente Medieval

Muitos outros exemplos de “procedimentos” do IPCC podem ser encontrados com a cortesia dos e-mails do ClimateGate.

Por exemplo, no capítulo 6, o capítulo sobre o paleoclima, no Fourth Assessment Report (AR4), o mais recente relatório do IPCC, é o forte sentimento de um dos autores coordenadores do capítulo principal, Jonathan Overpeck, que quer destituir o Período Quente Medieval (PQM) – um período de temperaturas relativamente altas, que ocorreu há cerca de mil anos atrás. Se o PQM fosse considerado tão ou mais quente que as condições atuais, a possibilidade de que causas naturais pudessem desempenhar um papel maior no aquecimento recente seria mais difícil de ignorar. Portanto, a necessidade de descartá-lo. A tarefa de fazê-lo recaiu sobre Keith Briffa, que desenvolveu o conteúdo de uma caixa especial no capítulo 6 do AR4 do IPCC que foi além do texto principal e que se concentrou no PQM. Aqui está o parecer emitido por Overpeck para Briffa:

Tenho a sensação de que eu não sou o único que gostaria de dar um golpe mortal na utilização abusiva de um suposto Período Quente e outros mitos da literatura. Os céticos e desinformados também adoram citar esses períodos como análogos e naturais ao aquecimento atual – lixo puro.

Assim, por favor, tente decididamente seguir o meu conselho do e-mail anterior. Não há necessidade de entrar em detalhes específicos sobre o PQM, mas seria bom mencionar outros com o mesmo esforço para desconsiderá-lo.

Briffa tentou completar sua tarefa, apresentando uma coleção bem escolhida de dados que mostravam que, enquanto algumas reconstruções históricas de temperaturas mostram um Período Quente há cerca de 1.000 anos atrás, outros não. Ele concluiu que um quadro mais completo indica que as temperaturas mais altas durante o PQM eram “heterogêneas” (regionalizadas), enquanto que o aquecimento do final do século 20 foi “homogêneo” (isto é muito mais amplo em extensão espacial) – confirmando que as condições atuais foram provavelmente sem precedentes, nos últimos 1.300 anos. Briffa recebeu de Overpeck os parabéns por um trabalho bem feito:

Segue anexo o quadro de Keith com meus comentários. Ficou muito bom – muito parecido com uma marretada. Bom trabalho.

Assim, esta conclusão dirigida pelos desejos Overpeck, escrita por Briffa e talvez comentada por outros autores do capítulo (com diferentes graus de conhecimento sobre o assunto), está preservada como “o consenso dos cientistas”.

Mas aparentemente, o consenso não é aceito por outros importantes pesquisadores do paleoclima. Em uma revisão dos artigos publicados em 2009 na revista Climatic Change, os pesquisadores do paleoclima Jan Esper e Frank David cuidadosamente reexaminaram as mesmas reconstruções históricas de temperaturas utilizadas por Briffa e chegaram à conclusão de que o IPCC não apresenta justificadas consistentes para declarar que as temperaturas durante o PQM foram mais heterogêneas do que as atuais. Em seu resumo, Esper e Frank escreveram:

Em seu relatório de 2007, o Grupo de Trabalho I do IPCC refere-se a uma heterogeneidade crescente do clima durante o Período Medieval, há cerca de 1.000 anos atrás. Esta conclusão seria irrelevante, já que implica um contraste com as marcas deixadas no território pelas forças da corrente de calor, durante o Período Medieval. Nossa análise dos dados apresentados no relatório do IPCC, no entanto, não mostra nenhuma indicação de maior propagação nos registros históricos de longo prazo. Ressaltamos a relevância dos problemas de replicação de provas, e argumentamos que uma estimativa de mudanças na homogeneidade espacial das séries de longo prazo é prematura, com base no conhecimento e nas informações atualmente disponíveis.

Resumo

Portanto, temos aqui vários exemplos de “procedimentos do IPCC” e como “o consenso dos cientistas” é formado. Em um caso, o “consenso” foi formado a partir de comentários feitos por um único cientista à imprensa; no outro, o “consenso” do IPCC está em conflito com o consenso de cientistas realmente ativos no tópico de interesse; e no terceiro caso, o “consenso” do IPCC é dirigido pelos desejos de um dos principais autores de coordenação, e agora é disputado por outros membros nessa área. Outros exemplos parecem estar sendo desvendados (veja aqui sobre conclusões a respeito da produtividade agrícola futura na África, ou aqui sobre o IPCC empurrar idéias pré-concebidas).

À luz do que sabemos, sugiro que, a partir de agora, todos os produtos do IPCC venham com uma etiqueta de advertência com os dizeres a seguir:

“As conclusões dos relatórios do IPCC foram desenvolvidas com antecedência e promovidas por uma seleção cuidadosa de qualquer material encontrado para apoiá-las. Em alguns casos, foi desenvolvido material de apoio ou mesmo fabricado, onde nenhum outro foi localizado. Como tal, estes resultados podem não necessariamente refletir o verdadeiro estado da compreensão científica. Use por sua conta e risco”.

O post acima é uma tradução livre do post de Chip Knappenberger no blog MasterResource. Para ver o original, clique aqui

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1 Response to “Advertência sobre o “consenso” do IPCC: use por sua conta e risco”


  1. 1 Josualdo 04/02/2010 às 20:14

    Fico satisfeito por encontrar (através do colega Ecotretas) mais um “resistente” de qualidade, e nas áreas biológicas.
    Passe a publicidade, visite, se assim quiser, o meu blog em http://falardotempo.blogspot.com
    Um abraço.


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